sexta-feira, 8 de abril de 2011

Dois prêmios estranhos

Regina Helena de Paiva Ramos

Duas respeitadas universidades – uma na Argentina e outra em Portugal, distribuíram recentemente prêmios no mínimo estranhos. A Universidade de La Plata, respeitadíssima (visitei uma vez a sua Faculdade de Jornalismo e cheguei a pensar em fazer lá um mestrado, tão impressionada fiquei com a sua excelência) concedeu o Prêmio Rodolfo Walsh de liberdade de imprensa a ninguém mais que Hugo Chaves, o homem que retirou do ar a emissora de tevê RCTV – que lhe fazia críticas – encampou uma outra rede televisiva e estatizou trinta e quatro emissoras de rádio . Que diabo de liberdade de imprensa e essa? Que diabo de prêmio é esse que concede honrarias ao aprendiz de ditador (aprendiz/irmão/amigo de Muamar Kadafi, o sem-vergonha que está no poder há quarenta e dois anos, um dos homens mais ricos do mundo)? Que diabo de júri tem essa grande universidade para pisar dessa forma no tomate? No tomate só, não! No tomate, no pimentão, na beterraba, na cenoura e em que outros legumes quiserem.

A gente fica estarrecida!

Nem bem tinha passado o estarrecimento outra querida Universidade – a de Coimbra, berço de tão brilhantes gentes, fundada em 1290 por D. Diniz, austera, famosa, digna, histórica, concede o título de doutor honoris causa ao senhor Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, que afirmou solenemente que leitura lhe dá azia... E que sempre se vangloriou da sua falta de estudos e de seus pendores para o autodidatismo. Como é que se oferece o título de doutor honoris causa a quem nunca leu um livro? Até porque a leitura lhe dava problemas estomacais?

Há muitos anos atrás comecei a ter uma certa azia. Mas não era por causa de livros e/ou jornais, graças a Deus! Era ao comer tudo que levasse farinha. No ano passado alguém me perguntou como tinha curado minha azia. Respondi: “Operei um câncer”.

Certamente a azia do excelentíssimo senhor em questão não é igual à minha. Nem precisaria de uma cirurgia no mesentério, como foi o meu caso. Poderia sarar definitivamente se, agora que tem tempo sobrando, resolvesse estudar.

Voltando à honraria concedida pela Universidade de Coimbra. Sua outorga deve ter feito com que alguns intelectuais de nomeada tenham se revirado nos respectivos túmulos. Afinal, nunca antes na história daquele país se viu aberração tamanha.

Sinal dos tempos? Que tristes tempos são esses no qual se revertem valores, se invertem conceitos, se pensa de trás pra diante?

La Plata é referência na America Latina. Coimbra é referência na Europa. Se ambas se equivocaram – só pode ser equivoco! – como não esperar que eleitores também se equivoquem?

Tenho uma sugestão a fazer às duas queridas universidades. La Plata poderia conceder um prêmio por liberdade de imprensa ao senhor Fernando Sarney, o mesmo que entrou com pedido de censura ao jornal O Estado de São Paulo. E Coimbra poderia conceder o título de doutor honoris causa ao deputado Tiririca.
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