segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Lá vem ela, por Marli Gonçalves

Era para a gente estar contente. Hora de mudança. Hora da primavera, o frisson de setembro, os acasalamentos, os encontros, as flores e cores. Mas o ar não está leve, muito menos cheiroso


Continuo achando esquisita como anda a aspereza do debate entre as partes de nosso país. Já vi esse filme. Um monte de cabeça-duras de um lado e outro montinho de outro. Só que naquela época nós estávamos junto com nossos amigos do mesmo lado, no mesmo montinho, voltados na mesma direção, que era à esquerda. Porque estávamos acuados na extrema direita, sob a sua égide e força. A guerra estava traçada; os adversários usavam a força; os combatentes, a inteligência, o caráter e a coragem. Mesmo quem não pulasse corda dava a mão e, às vezes, a cara para bater.

O perigo era comum. Hoje não. Não tem mais disso. Acredito que essa seja a primeira eleição assim, meio sem real ideologia teórica. Meio, ou melhor, completamente, sem eixo. Para a presidência, o embate principal oficial é entre duas mulheres e um homem, todos com idéias na mesma direção da estrada, e promessas cada vez mais inacreditáveis. Mas alguns usando métodos digamos "mais eficientes": propaganda de massa, oferta de gabinetes, tráfico de influência, utilização de dados sigilosos, ameaças veladas.

Não pode haver quem - por mais dilmático que já esteja - que possa nem tentar negar que o presidente Lula e sua turma estão indo longe demais, atropelando toda a sorte de legalidade, vergonha, escrúpulo. Que a eleição está com cor e cheiro de vingancinha pessoal. E o que é pior: durante os últimos anos a oposição só fez se desfacelar. Toma Tiririca na coligação do PT! Com Maluf e outros dinossauros. Empresários subitamente socialistas e verdes crescendo mais do que agrião no rio. Ligações e coligações inimagináveis. Serra bonzinho, doce. Dilma, arrumadinha como compraz a uma boa senhora. Marina, salvadora, natural, com sua voz fina e muito lenta, principalmente em atitudes.

Se cobrir vira circo; se cercar vira hospício. Se gradear, vira prisão. Se plantar, floresta. Se secar, Saara. Se cavar, encontra. Se jogar para cima, lama.

Viramos espectadores de um circo, com ursos, leões e leoas, macacos e macacas - todos amestrados como passarinhos comendo alpiste na mão aberta do sistema. Os palhaços, trapezistas e equilibristas, mágicos e ilusionistas tecem o roteiro do espetáculo. Concorrem entre si na truculência dos que não podem debater com a razão. Batem o pé, teimosos, falando em maioria, como se sempre fosse essa maioria a beneficiada. Um altruísmo absolutamente oportunista e insensato.

Na lona. Onde exatamente ficaremos caso essa experiência maluca que nos estão impingindo se concretize e não dê certo, infelizmente, como importantes cabeças pensantes vêm nos mostrando antecipadamente todos os dias, sem resultados. Não é o combatente Lula, aquele metalúrgico que mal ou bem tanto cultivamos e até idolatramos, que está se candidatando, mas um toco que ele viu em uma miragem do tipo de poder concentrado. Não é o dândi Fernando Henrique que compete, o que é uma pena, inclusive.

A culpa é nossa, maxima culpa. E punto e basta. A schifosa é nossa cria, assim como o vampiro, a cabocla Jurema, as mulas, os chupins e outros filhotes que estamos acompanhando, criados para na primeira oportunidade que puderem morder quem lhes deu vida. Dessa máxima não conseguiremos nos livrar - é da natureza. O ar seco do inverno ainda nos embota os pensamentos, enquanto os novos dias não chegam.

Nossas primaveras já foram melhores. Mas, como descreveu Cecília Meirelles, em "Primavera":"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega".

Se não há mais o bom senso, não há como remediar o mal que estará sendo decretado nos próximos dias. Para muitos parece que nem precisava fazer eleição - gostam dos experimentos in vitro. Não precisa mais transar, a não ser com a seringa. Até as flores e frutos, as folhagens das árvores, estão confusas, sem saber que tempo é esse.

E será o tempo da reorganização, da convocação de forças e idéias, de formarmos novamente nossos montinhos. Desde que não nos matemos uns aos outros agora.

Primavera, São Paulo, 2010.


• (*) Marli Gonçalves é jornalista. Sempre ouviu falar no perigo dos redemoinhos, e dos sacos sem fundos.
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