domingo, 18 de outubro de 2009

FORA DA LEI

(ilustração da nossa querida Silvane Saboia)
Nota - texto da escritora Mirian Martin

Se eu não amasse em português, provavelmente diria em Tupi o quanto amo.
Talvez não gostasse de bacalhau ou sardinhas, mas comeria uma traíra sem espinhos.
Quem sabe nunca tivéssemos um Imperador, ou sequer uma Ditadura, ficaríamos deslumbrados com a tal Democracia, mas também ninguém nos arrastaria para votar.
São Paulo não seria a megametrópole que hoje é, talvez apenas uma cidadezinha acima do nível do mar. Mas Rio de Janeiro sempre seria a Cidade Maravilhosa, e Florianópolis, Fortaleza, Recife... Entretanto, os nomes não seriam os mesmos, talvez Ipiranga, Ipanema, e outros nomes que fogem ao português. O mar e água sempre seriam a nossa razão de existir.
Estaríamos pouco ligando para alta tecnologia, desde que nos deixassem em paz com nossos pezinhos de milho e mandioca. Claro que nem sonharíamos com a tão famosa feijoada, mas por outro lado nossa curiosidade para tudo nos faria um país se não de grandes pesquisadores, mas de gente que procuraria solução para grande parte de seus problemas. Se não de grandes glutões, mas de grandes gourmets que experimentariam sabores e temperos de todas as formas.
A nossa História seria de grandes homens que construiriam, homens que questionariam o status quo, que levariam outros a tomar posturas que acreditariam ser melhores para o país.
Provavelmente não teríamos grandes indústrias, mas nossos rios ainda seriam limpos.
Continuaríamos, como um povo, a não saber falar o inglês e o espanhol obrigatório para se dar bem na vida, mas a nossa vida seria mais tranqüila. Sem os requintes e as mordomias, provavelmente com o misto de horror e curiosidade turística da Europa e EUA.
Entretanto...
Entretanto, o nosso "eu te amo" sai "eu tchi amu" (em São Paulo, claro) e falamos português desde que a família Real Portuguesa resolveu vir para cá com Napoleão na sua retaguarda e a esquadra inglesa de batedora para ter certeza que Portugal não faria aliança com Napoleão.
Como precisava sempre de um tradutor para os relatórios ao Rei, promulgou-se a lei de que falar português era obrigatório. Somente os fora-da-lei falavam a língua brasileira, o brasílico.
À partir daí os fora-da-lei se multiplicaram assustadoramente. Nos quilombos, nas sociedades secretas contra a derrama do ouro, nas pequenas revoluções onde morreram muitos, nas reuniões contra a escravatura, e afinal na atitude de D.Pedro I declarando a independência do Brasil.
Mas já era tarde demais. Ser fora-da-lei já era um vício.
Contrariando os interesses dos grandes fazendeiros, deu-se liberdade aos escravos. Contrariando a tudo o que se pode imaginar, os militares proclamaram a República e uma das pessoas mais cultas da história brasileira foi expulsa do Brasil por ser Imperador. Contrariando a idéia de que escravo deve permanecer na senzala, o país tem um dos maiores índices de miscigenação e dificilmente algum brasileiro pode-se dizer raça pura. Contrariando a cultura, já mais que misturada do brasileiro, Getulio Vargas quase se alinha a Hitler, não fosse um misterioso ataque na costa brasileira atribuído aos nazistas. Mesmo assim, Getúlio Vargas, até hoje é reverenciado apesar de seus defeitos. Contrariando toda a idéia de que a democracia deve ser preservada, os militares retomam o poder e instituem uma ditadura de terror, ao mesmo tempo que dão ao povo benefícios que os políticos ainda hoje estariam discutindo para quem ficariam os louros da glória. Contrariando qualquer idéia de retomada de poder à força pelo povo e para o povo, os militares entregam o poder ao povo, que, inacreditavelmente, a cada eleição que se passa consegue escolher pior os seus candidatos para o representar. Contrariando qualquer expectativa de uma nação que cresce econômica e socialmente, nasce no meio político a vontade de criar guetos impossíveis, discriminando raças e desvalorizando o trabalho, o potencial humano.
Contrariando a idéia de que alguém do povo o representaria plenamente, nunca, na história do Brasil, houve tantos fora-da-lei no Poder!
Ser fora-da-lei é um vício... tanto quanto acreditar que Brasil não tem história, ou acreditar que todos os "jeitinhos" são criminosos, ou acreditar que todo brasileiro é mal-caráter, ou acreditar que só brasileiro quer levar vantagem em tudo, ou que todo brasileiro é um potencial criminoso, ou que todas as brasileiras sabem sambar, ou que todas as brasileiras são sensuais, ou que todo garoto que vive em favela vai ser um traficante, ou que ninguém que nasceu em uma favela possa crescer na vida, ou acreditar que morar em favela é degradação moral, ou acreditar que quem é analfabeto não pensa, ou acreditar que todo brasileiro fora do Brasil é quase uma vergonha nacional por não ter nascido naquele país estrangeiro, principalmente quando ressurge das trevas profundas uma brasileira fazendo macaquices, ofendendo quem bem lhe apraz, sem ter noção do terreno em que pisa.
Mas ser fora-da-lei, fora do esperado, é vício...
Assim como são inesperados e encantadores os nossos músicos, as nossas novelas, os nossos cientistas, os nossos jogadores de futebol, jogadores de vôlei, os nossos médicos – curiosamente, brasileiros... e que são admirados e respeitados no mundo inteiro.
Mas ser fora-da-lei... É vício...
Bom domingo!

Mirian Martin

http://caldeirao-da-bruxa.blogspot.com
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