segunda-feira, 20 de julho de 2009

Manias, manhas e laços invisíveis

por Marli Gonçalves

Por mais solitários que sejamos, também somos gregários e incorporamos coisas e pessoas às nossas vidas. Muitas delas ficam invisíveis até que a gente se dê conta, ou sinta muito sua falta, e chegue até a sofrer, quando elas não estão mais onde deveriam estar.
Pode ser o mais maluco, o mais eremita, o mais chato, o mais esquisito, o mais antissocial dos seres: todos têm alguém com quem falam, se desprendem, de quem gostam, mesmo sem saber exatamente por que isso se dá. Há de surgir no caminho da vida alguém que nos enterneça ou nos chame a atenção. Para quem até você conte segredos ou faça confissões que considera realmente guardadas. Ou alguém que a gente espera que esteja ali, naquele lugar, mesmo que anos e anos se passem, sem que você tenha estado de volta no local. Queríamos muitas vezes que as coisas fossem imutáveis, que as pessoas não morressem, não crescessem, não saíssem dali nunca. O motivo pode até ser bem racional, como essa pessoa prestar um serviço único, ou o único que te agrade prestando esse serviço. Nesta lista há inclusive algumas profissões, que ficam nobres, quer ver, para entender do que falo e já começar a me ajudar com a lista? Manicure, pedicuro, barbeiro. Alfaiate. Jornaleiro. Às vezes, padeiro, cozinheiro, sorveteiro. O garçom daquele lugar que você gosta e te chama pelo nome. O frentista que te quebra um galho e até troca dinheiro. Tem o cara da loteria, a banca da feira, o fruteiro, o japonês do pastel, a mulher das pimentas, o Zé das flores. O açougueiro (caso raro: se encontrou algum legal, grude nele), o peixeiro, o tintureiro. O velhinho que amola as facas e chega à sua porta com aquela musiquinha fina, estridente, mas humana e melhor do que a do caminhão de gás. A vendedora revendedora da Avon, agora com várias concorrentes. Há ainda a caixa do supermercado, o empacotador, o guardador de carros (os new flanelinhas são mais inconstantes) para quem você até dá as chaves do seu possante.Já contei aqui que já nasci no meio do balacobaco da Rua Augusta em plena efervescência dos anos 60, e conheço pouco da vida pacata de uma pequena cidade, que imagino em sonhos. Imagino inclusive com todas as chatices e um verdadeiro pavor das bisbilhotices, mas também vejo com esse lado bom, humano. É muito presente a fantasia do pipoqueiro da praça, do vendedor de algodão doce, dos cataventos, do banco da praça, da Igreja Matriz, da "boneca” da cidade, do senhor delegado, do policial, do prefeito avistável, e até do mendigo da praça. Ah, deve ter ainda o cachorro da praça. Para completar, só com o homem do realejo e o papagaio tirando a mesma sorte anos após anos.Mas sempre fiz à minha volta uma espécie de vila, onde ao menos pudesse me sentir mais confortável, mais segura. Na Rotisserie Bologna há empregados que me conhecem desde menina, e na Augusta houve lojas onde cansei de grande me ver descrita, pequena, tentando pegar coisas da vitrine, ou tentando morder um doce. Ali tinha mercearia, a farmácia, o Gonçalves Sé (que adorava pensar que podia ser de minha família, mas infelizmente...), o Frevinho, o Longchamps, a Lojas Modernas, de brinquedos. Tinha o motorista do ônibus elétrico que nos esperava. E tinha tudo o que passava e vivia ali naquele quarteirão, de Raul Seixas a Elis Regina e os Bôscoli. Restou pouco ou quase nada de todos eles. Os anos se passaram, mas me vejo ainda com muitas dessas manias e manhas de gente, com laços, onde vou. Vi a garota da rua crescer, ter filhos, aliás, muitos, e hoje, taxista de carro novo, ainda fazer ponto. Adoro ver a margarida da área, sentada fazendo palavras cruzadas, que às vezes ajudo a completar. Adotei uma manicure, tenho a minha padaria, a banca, a tabacaria. A todos apresentei minha cadela, que foi tratada como eu, como gente, enquanto viveu. Até hoje respondo sobre ela. Ou sobre minha mãe, com quem muito aprendi sobre as vantagens de você ser fiel, ter amigos aqui e ali. Com ela aprendi a ver e aproveitar de boas cestas de liquidação (os amigos das lojas avisam antes) e a ver como para nós as coisas eram servidas com mais amor. E que depois soube o quanto era querida por onde passava.Você é assim? Compreende do que eu estou falando? Ou já está "frio”, vive em condomínio fechado, só sai de carro, não sabe onde tem nada, nem tem nada ou ninguém especial? Muda por causa da moda? Se estiver nessa, perdeu. Tenho pensado muito sobre como é essa cidade de São Paulo, as cidades todas, o rancor e a falta de gentileza que vemos nas ruas. E isso não é vida. Não é modernidade. Levante os olhos do computador e vá para as amplas salas de bate-papo das ruas. Às vezes pode até se sentir sozinho, mas se quiser pode puxar uma conversinha boba e boa. Sobre o tempo, sobre o custo de vida, sobre os políticos safados, até olhar e comentar o balanço dos quadris da morena que passa. E ouvir e conhecer gente legal, das quais você não precisa ter nem telefone, nem e-mail, e o nome às vezes é só um apelido que você mesmo deu ou inventou.Não é saudosismo. Desta vez, não. Mas é que às vezes vejo que as coisas estão num troca-troca pior do que casamento moderno. Não existe médico da moda. Existe o seu, que pode até ser ainda aquele pediatra. Você pode comprar pão em outro lugar, mas se for melhor. Roupa de atriz de novela é cafona, vai passar e você não vai querer nem ver aqueles badulaques indiano-cariocas. Você tem uma comunidade sua. Faça parte dela. Se integre e se entregue. Garanto que terá só o que ganhar, inclusive emocionalmente, se isso te interessar, e espero que sim. Suas unhas ficarão mais bonitas, sua casa mais segura, seus filhos mais bem tratados, e a comida de sua mesa terá mais qualidade. Pode ser até mania. Mas, e daí?
São Paulo, selva de pedra, mas também pode ser um pequeno e bucólico vilarejo.
Marli Gonçalves é jornalista, paulistana. Por conta desses anônimos queridos já se livrou de assalto, de comer coisa ruim, de pagar mais caro. Já deixou para pagar no Dia do São Nunca e até já achou coisas incríveis nas lixeiras das ruas. Conheceu o cozinheiro que sentava com o João Gilberto, e com ele tomava Coca-Cola quente; o músico que falava sobre estrelas com o físico Mario Schemberg e ainda tem o prazer de quando em quando de encontrar com a Lygia Fagundes Telles ali, na rua, conversando como se mortal fosse.
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