sábado, 25 de abril de 2009

PROTÓGENES ESCAVOU TANTO QUE ENCONTROU O PT



"A sociedade espera, e tem razão para esperar, que cada um desempenhe o mais perfeitamente possível o papel que lhe coube; assim, um homem que seja sacerdote deve em todas as ocasiões desempenhar impecavelmente o papel de sacerdote. A sociedade exige-o por uma espécie de segurança: todos devem permanecer no seu posto, aqui um sapateiro, além um poeta. Não se espera que ninguém seja ambas as coisas [...], isso seria "esquisito". Um homem desses seria "diferente" dos outros, não mereceria confiança. No mundo das letras seria um diletante; em política, uma grandeza "imprevisível"; em religião um livre-pensador. Em suma, seria suspeito de incompetência e inconsistência, pois a sociedade está convencida de que só um sapateiro que não seja poeta poderá fazer sapatos bem acabados."

Carl Gustav Jung

Waldo Luís Viana*


Protógenes é um arqueólogo. Como quase todos nesse país, nunca nesse país exerceu a profissão do peito. Foi ser policial, escolheu a metáfora. O policial escava também, investiga e encontra, mas tudo depende de seus patrões, do arcabouço institucional que lhe envolve.

As incursões da Polícia Federal no governo PT são tema para cineastas. As algemas explícitas, as invasões às seis horas da manhã com cobertura exclusiva da Rede Globo, os camburões abertos na traseira para agasalhar bundas notáveis, os possíveis “peixes grandes” para as classes “D” e “E”, que já possuem televisão, geladeira e “gato NET” – formam o conluio perfeito da enganação fantasiosa que embala o povo: “tá vendo, o Lula tá prendendo os bacana, nunca neste país...”.

Horas ou dias mais tarde, a Justiça aparece, através do concurso de advogados milionários, e solta quase todo mundo, ficando presos alguns bagrinhos de bolso magro e destino infeliz. Mas para efeito midiático, consumou-se a pirotecnia. Nem Cesar Maia, o prefeito dos factóides, do Museu Guggenheim e da Cidade da Música poderia conceber tamanha facécia, tamanha “boutade”, como dizem os franceses...

Mas há os policiais sérios e Protógenes é um deles. Há também gente séria no Ministério Público, apesar de, no governo FHC termos assistido as peripécias de um tal procurador de orelhas de abano, que aparecia na televisão e a cada depoimento ou ação parecia querer nos lembrar que Lombroso tinha razão...

Protógenes escavou a vida de Daniel Dantas. Não devia. Há notícia daquela maldição dos arqueólogos ingleses, que remexiam em velhas tumbas do Antigo Egito e morriam envenenados. Pois o veneno que soltaram sobre o policial legítimo foi o de ser condenado a fazer um “curso de especialização” em Brasília.

Lembro-me de Rui Barbosa, quando em 1910 recomendou que o país devia se industrializar e os barões do café daqueles tempos mandaram-no, num exílio dourado, estudar nos Estados Unidos detalhes bizantinos da Constituição norte-americana. Com isso, o Brasil perdeu vinte anos de desenvolvimento, veio a crise de 1929 e a nossa economia, baseada na monocultura do café atrasou-se em progressão geométrica em relação a nossos vizinhos do Norte. Enquanto, eles praticavam a 2ª Revolução Industrial, nós empacamos e só começamos a 1ª depois da construção de Volta Redonda, em 1942, com Getúlio Vargas. Por isso, agora somos o que somos...

Voltando a Protógenes, a Polícia Federal julgou que o homem foi fundo demais. Não a polícia propriamente dita, mas os que, de cima gerenciam a polícia e a querem como milícia, ou seja, cumpridora das ordens daqueles que abrem e fecham o portão.

Todos sabem o que fazia Daniel Dantas. Quantos discursos sobre o gajo fez o falecido Antonio Carlos Magalhães. Daniel é um baiano erudito, da estirpe dos mais plangentes. Ele sabe o caminho das pedras. E o caminho das pedras está no exterior. O dinheiro grosso, bandido e elitista, tem que ficar no exterior. Não através das contas “CC5” do Banco Central. Essa via legal, com impostos declaratórios, não interessa à classe política. Há doleiros, corretores financeiros, escritórios de advocacia de fachada – todos especializados em transferências para contas numeradas e paraísos fiscais. Esquenta-se o dinheiro frio, esfria-se o dinheiro quente e abrem-se firmas de factoring no exterior para as triangulações e atuações de laranjas. E o rastreamento é doloroso, porque só pode ser digital.

Pois bem. A fortuna do PT e dos petistas está também lá fora. Que o diga o desespero de Duda Mendonça para receber o numerário que lhe correspondia pela eleição de Lula em 2002. Teve que abrir uma firmazinha lá fora. Esse é o nosso arquivo X. E nossos ET’s são do PT, os socialistas de mercado que vão copiando os métodos antiquados de nossas elites patrimonialistas, que mandavam os seus haveres para o exterior. Nossa classe política de ficha suja, quando se alteia aos postos mais relevantes da República, pratica os mesmos métodos.

Aí é que entra a genialidade do banqueiro baiano. Que tal uma instituição que aglutinasse todas essas operações, sob fachada legal, e “operasse” o leva e traz sem quaisquer suspeitas, albergando as benesses de cidadãos acima de qualquer suspeita? E com todo o séquito de malandragens: laranjas, subornos, empreiteiras, agentes públicos envolvidos, policiais, servidores públicos e juízes – afinal, se todos estão envolvidos detém-se a lei e ela não vigora. Então entra o humorista, dizendo: se todos são pervertidos, locupletemo-nos...

O “sistema” funciona assim, os milionários com suas lanchas, mulheres gostosas sobrevoando as mansões, Caribe e ilhas paradisíacas, Ibiza, Nova Iorque, Paris e Londres, sem esquecer a velha Suíça de guerra, com seus fabricantes de chocolates, queijos e contas numeradas secretas. O brasileiro leva para fora os seus dólares e os internaliza para jogar nas bolsas com os juros mais caros do mundo. Sem impostos e com muita democracia.

Protógenes sabe de tudo e não pode falar. A Polícia Federal não pode investigar certas coisas e os últimos acontecimentos contra o banqueiro Daniel, que ficou na cova dos leões, mas foi salvo duas vezes, como na Bíblia, pelo anjo Gilmar Mendes, denotam que ele não pode também abrir a boca, porque tem a República nas mãos. O pior é que para os mais atentos essas ações da PF (não é “prato feito”) ficaram parecendo vingança das vítimas do mensalão.

A arqueologia é uma ciência espetacular. Descobre coisas raras debaixo da areia. E olha que se a Polícia Federal escavar muito, se aprofundar a Satiagraha, fugirá do controle de certos ministros de plantão, alguns até ex-terroristas e ex-guerrilheiros famosos, e quem sabe há de se transformar numa verdadeira Polícia de Estado?

Na situação em que está, a PF vive numa situação perigosa: quanto mais for digital, mais apelar para a inteligência, quanto mais utilizar seu laboratório de análises clínicas para remexer nas fezes da República – mais vai se deparar com os mesmos atores e operadores de elite, que fizeram a lei, são amparados por ela e têm agentes e lobistas espalhados pelos Três Poderes.

Que tal nossos atuais barões mandatários oferecerem a Protógenes um mestrado em arqueologia no Egito, hein?

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* Waldo Luís Viana é escritor, poeta, jornalista e economista e olha tudo do interior, com o seu farol de milha...
Teresópolis, 7 de agosto de 2008
(é isso mesmo, artigo requentado)
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