terça-feira, 10 de março de 2009

BOCA NO TROMBONE


por Marli Gonçalves


Não é mais feio falar isso. É bonito fazer isto. Diria até que todo mundo deve experimentar fazer, antes de ir embora daqui, para o céu.
Estou começando a fazer uma lista, igual àquelas que o pessoal da tevê cria para encher linguiça. Tipo 100 lugares inesquecíveis, 50 filmes, 14 Maravilhas do Mundo. Tipo aquela sentença que eu gostaria muito de saber quem foi o inventor, e que lista que, para uma pessoa se realizar, é preciso plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho.Como não dá mais para me enquadrar totalmente, pelo menos no último quesito, a não ser como mãe de gata que já virei, pensei em listar outras coisas legais que podem fazer um homem ou uma mulher orgulhosos de sua existência. Sem necessariamente a árvore, o livro e a criança.Um dos primeiros itens que me ocorreu, foi justamente esse: por a boca no trombone.Pelo menos uma vez na vida as pessoas precisam se dispor a isso. É igual e tão bom como gritar bem alto e sozinho numa praia deserta. Lava a alma. Você sente que acaba de contribuir para a melhoria de algo, por menor que seja. Isso inclui muita coisa: até tirar a roupa na porta giratória que te deixa travado e com cara de assaltante perigoso daquele banco pentelho. Nada me tira da cabeça que travar aquela porta safada é só uma forma dos guardinhas se divertirem. Ih! Já levantei saia, comecei a abrir o zíper da calça... A porta abriu mais rápido que gritando "Abre-te, Sésamo!” Se as coisas não funcionam ou só funcionam - infelizmente - depois que a gente grita, vamos lá! Vamos por a boca no trombone. Reclamar. Protestar. Discutir, participar. Até elogiar, quando for o caso (raro, eu sei - muito raro, mas possível e bom de enaltecer). Todos com a boca no trombone! Xô, apatia! Chega de pensar que "os outros" cuidarão disso. Conheci essa semana um grupo de pessoas - profissionais liberais, médicos, advogados, professores, artistas, ambientalistas, empresários, donas de casa que há um ano se dedicam a isso. Por a boca no trombone. O Grupo Por um Brasil Melhor (veja o bolo, na foto, que coisa mais amorosa) comemorou um ano de vida. Suas armas: missivas, rápidas, diretas, disparadas de seus canhões particulares, em suas casas. Isso mesmo. Cartas. Cartas aos jornais, pela rede, voz nas rádios. Um olhar fiscalizador e crítico pairando sobre os poderes. Eles se encontram só uma vez por mês pessoalmente, na casa de algum deles, e em volta de boa comida caseira. O resto do tempo tricotam a teia pelo computador.Aliás, a Internet é uma mãe gentil para esse ato - a boca no trombone. Com os mecanismos de busca cada vez mais avançados e de simples manejo a gente consegue encontrar maluco parceiro para tudo. No mundo inteiro, globalizado total. E juntou mais de dois já é Revolução. Entre outras, confesso, mãozinhas para cima: sou associada a uma espécie de sociedade sueca, mas já espalhada pelo mundo, de orgulho e preservação do ser solteiro, o Singelringen, e todos os membros identificados por um lindo anel azul com prata, numerado e registrado. Só o fato de obtê-lo já é um troféu. E, como em todos os cantos, tem um povo do Brasil por lá. Ao mesmo tempo está todo mundo de saco cheio e cansado, querendo mais é que o mundo derreta, e cuidando apenas de si próprio. No máximo de cinco ou seis coisinhas e pessoinhas ao seu redor. Infelizmente, pessoas e coisinhas que crescem aprendendo o egoísmo dos próprios pais. Se todo mundo continuar achando que está tudo bem, olhando de longe, apontando com o dedinho, o risco é muito grande. São impostos corroendo almas, quando conseguimos pagá-los. Engoliremos cobra s peçonhentas. O Congresso vai continuar um balcão de negócios com dois ou três falando com as paredes, como bobos da Corte, e esta apenas ri. Só pusemos lá os mercadores, os mercenários, os mequetrefes? Por que não ir procurando desde já seu próximo voto? Faça com que de alguma forma ele te represente. Boca no trombone: o pessoal que foi fazer uma praia na Avenida Paulista, símbolo de São Paulo, outro dia. Com humor, maravilha! Aquilo, gente, era um protesto, e dos melhores que já vi. Protestaram de uma vez contra terno, gravata, falta de lazer, por espaços urbanos mais liberais. Protestar não é sinônimo de barba, bolsa, bigode, saião, chinelo e cara feia. Pode ser muito prazeroso, até um desafio, do jeito que as coisas andam. Se obrigar a conviver mais, socialmente, com outras pessoas. Conhecer gente nova, totalmente diferente de você, do seu mundo, mas que em algum ponto pensa igual. Nostálgica, tenho saudades das ações e intervenções hoje já antigas, tantas que já fizemos por aí. Sempre românticas, idealistas, como a vida deve ser: abraçar coisas, lagos, árvores, ruas, casas, se pintar para a guerra, formular palavras de ordem, se fantasiar. Agir. Por a boca no trombone.Será que só era legal quando era proibido, quando corríamos riscos?


* Marli Gonçalves, jornalista.


Um dos primeiros namorados, de inicio de adolescência, André. Louro, alto, esquálido, voz forte e com narigão, ganhou o apelido de Trombone. Nunca mais o vi. Mas escrevendo esse texto lembrei-me muito dele e de quanto eu ficava sem graça quando faziam piadas e eu nem ao menos sabia como todas as palavras podem ter vários sentidos. Até os instrumentos.

São Paulo, Semana do Consumidor, esse grupo que anda precisando muito praticar. Por a boca no trombone. Dia 15 de março é o dia.

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