quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Há rock´n roll no fim do túnel

Neil yeah yeah yeah Ferreira

O Rock´n Rio lavou um bom pedaço da minha alma numa das suas noites mais gloriosas. Foi quando a banda “Capital Inicial” cantou e incendiou a platéia com o “hit” “Que país é esse”, da banda “Legião Urbana”: “Nas favelas, no Senado / Sujeira pra todo lado / Que país é esse?”
Na abertura o vocalista explicou com um discurso recheado de palavrões do bem, daqui a pouco volto a essa história de palavrões do bem, por que iria iniciar o seu show com essa música: “-- Beleza, velho, isso aqui tem que rolar neste Rock´n Rio; é dedicado às oligarquias que ainda mandam em tudo nesse país, até censurando a imprensa, como fizeram por dois anos lá em São Paulo com o Estadão; essa música “duca...”, “Que país é esse”. É dedicada ao Sarney e a palavra é: Político é tudo filho da ...” Cara, ao ouvir o nome do Sarney, com a explicação de que “político é tudo filho da...”, a platéia pegou fogo.
Mais de cem mil boquinhas com todos os dentes, sem cáries nem falhas, brilhantes de trato desde a primeira infância, estrangeiras “no país dos mais de 80%”; boquinhas esculpidas em lindas carinhas coroando corpos enxutos, malhados, dourados; vestindo as grifes mais estranhas, de metaleiras a Hercovitch; meninas e meninos zelite da pura, da bela, da carioca ou imitadora da carioca; nenhum cotista nem bolsista de coisa alguma, não receberam ingressos digrátis para servirem de claque, todos pagaram ingressos caríssimos; detonaram uma explosão a uma só voz, como um coro ensaiado e não improvisado, que veio do mais fundo do coração e não só das gargantas, que ficaram roucas de tanto esforço: “Ei Sarney, vai tomar no... ! Ei Sarney, vai tomar no...! Ei Sarnei, vá tomar no... !”
Se você perdeu essa jóia do cancioneiro popular ao vivo, vá ao Google e digite: youtube "Que país é esse" Capital Inicial Rock´n Rio 2011 e imediatamente aparece meia dúzia de versões para você se deleitar.
Como disse o vocalista, “Beleza, velho”, mas faço a pergunta: “—Só o Sarney ? E os outros ?” Como é apenas uma pergunta retórica, cuja resposta todo mundo sabe, dou um breve resumo da minha resposta. “Sarney” naquele coro não era um espécime, era uma espécie; não era um indivíduo, era uma coleção de indivíduos, uma multidão deles; também era um adjetivo qualificativo. Era para todos os espécimes da espécie “sarney” irem “tomar no... !” Beleza, velho, tenho o prazer de repetir.
Não importa quão alto eles estejam situados na escala alimentar; isto é, na escala dos que se alimentam mamando nas tetas da viúva, todos da espécie estavam incluídos no coro glorioso, era a forma encontrada para dar um couro neles, testemunhada e repetida para milhões pela tevê.
O espécime, o indivíduo Sarney está entronizado no Maranhão, no Senado, pelo Amapá, e na presidência do Senado há não sei quantos mil anos; já sentou na cadeirona que hoje é propriedade definitiva do Cara por “usocampião”, de onde presidiu a maior inflação de todos os nossos tempos.
O país foi salvo pelo Plano Real, que o Cara lutou contra e o “cientista” Mercadante, hoje ministro da Ciência e Tecnologia, garantiu que “não durava nem três meses”.
O coro do Rock´n Rio remeteu-me à ensurdecedora, deliciosa e heróica Vaia Medalha de Ouro da abertura do Pan do Rio, quando o Cara se meteu a engrolar umas falas de improviso, escrito em letras grandes em doze páginas, e a galera aplicou-lhe e aos seus acólitos uma ensurdecedora e inesquecível vaia.
Foi a primeira e grandiosa vaia que entrou pelazorêia do Cara, acostumadas aos aplausos ensaiados da claque treinada e levada como gado, alimentada com a bolsa-lanche.
No Maracananzinho não havia claque, daí o Maracanaço; no Rock´n Rio não havia claque, daí o Rock´n Riaço, igual ao Maracanaço. Só o Rio mesmo para lavar a nossa alma, com a beleza das suas praias, da suas meninas, dos seus meninos, com bom-humor e coragem. Com a passeata dos Cem Mil, com a Vaia Medalha de Ouro do Maracanaço, com o coro dos Mais de Cem Mil do Rock´n Rio “Ei Sarney, vai tomar no ...”
“O Rio de Janeiro continua lindo / o Rio de Janeiro Fevereiro e Março / alô alô ô seu Chacrinha / aquele abraço...” O autor destes versos geniais, lamento afirmar, como ex-ministro que é, merece integrar aquela espécie que faz parte do coro “Ei Sarney, vá tomar no... “
Mas é o Rio que enche o peito e solta a voz e por isso continua lindo. A qualquer momento pego o avião e vou pra lá, requerer cidadania e “green card”.
Volto agora aos prometidos palavrões do bem a que me referi lá atrás. O humorista Tutty Vasquez, na sua coluna do Estadão (27/9, pág. C10), notou que em inglês os palavrões “f...” e “motherf...er” viraram vírgulas de tanto que são usados, desgastaram-se. Isso pode ter acontecido aqui. “É f... !” pode ser exclamação de admiração.”Filho da... !” quase nunca é ofensa. “É o jeito que os nossos filhos falam”, sentencia ele com ironia ou seriedade, não sei.
É por isso que o “Ei Sarney, vai tomar no... !” cantado pela multidão pode não ser o que eu penso, pode ser outra coisa. Sou paranóico. Mas quem não é ?
Faço meu o refrão que vi e ouvi no Rock´n Rio. “Ei Sarney, vai... “ Como quem tem, tem medo, censurei a metade.

Neil Ferreira
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