domingo, 27 de março de 2011

Carros, adesivos e o muito tempo que perdemos, por Marli Gonçalves

Ficar parada no trânsito de São Paulo me dá às vezes ideias mirabolantes a respeito do mundo, das pessoas, dos temas que escrevo. Olho as pessoas nas naves fechadas de vidros escuros e só consigo pensar nos Jetsons. No trânsito, mas com foguetinhos, pelo ar. Agora, com essa nova ondinha de família feliz, dá para fazer o perfil dos proprietários. E eu viajo na imaginação para passar o tempo engarrafado.


Primeiro foram os adesivos de Nossa Senhora de Fátima, aquele contorno de perfil dela, com o terço nas mãos. A primeira vez que vi foi numa Mercedes da Hebe Camargo há muitos anos, devia ser importado, o carro, com certeza; o adesivo, talvez. Agora há a modalidade "família feliz", que as pessoas compram e colam na lataria traseira. Como tudo ultimamente, moda de ambulante, modinha sino-paraguaia que infesta onde passa, pela quantidade boçal que chega. Tem de tudo: homem, mulher, bebê, menininho, menininha, cão, gato, papagaio, e, todos, com variações tipo homem executivo, mulher dona-de-casa. Não, ainda não vi homem com chifres, mulher gorda, sogra amordaçada, criancinhas em jaulas. A coisa foi pensada para ser "família". E o que é pior, família feliz. E a polícia, que não deve mesmo ter o que fazer, corre para alertar sobre o perigo. Imagine! Eles dizem que dá informações demais, que vão tentar dopar o cachorro, esgoelar o gat o, cortar o saco do papagaio e os meliantes adentrarão as residências.

Claro que, como há para tudo, existe aí um amplo espaço para a gaiatice, humor e imaginação. E claro, para a militância. Casais gays estão se assumindo, então você vê homem com homem, mulher com mulher mais criança, e pensando bem, até agora ainda não vi nenhum mulher solteira, sem filhos ou apenas um ponto de interrogação (acho até que teria comprado se visse). Não bastasse, essa semana assisti a uns vídeos de uma turma de "guerrilheiros": um grupo de jovens que sai por aí subvertendo a ordem das famílias felizes que deixam o carro parado nas ruas. Eles param e grudam outro homem do lado da mulher, outras mulheres do lado dos homens, misturam tudo. Colam personagens em situações específicas, vamos dizer assim.

Quando era pequena me divertia muito com os bonequinhos de verdade que as pessoas colocavam no painel traseiro: a onça, com oncinhas que piscavam os olhinhos vermelhos de luzinhas e balançavam as cabeças de molas no pescoço, macaquinhos que davam tchau, chinesinhos lado a lado parecendo bonecas russas, as matrioshkas.

Houve ainda a vez dos ímãs de São Cristóvão, quando ainda havia metal nos painéis dos carros, onde eles ficassem grudados, mas que ainda rolam nos restaurantes de estrada, para caminhoneiros. "Não corra, papai!""Vai com Deus. Te espero na volta", "Não corra, não mate, não morra". Os mais sofisticados vinham com um pequeno porta-retratos onde se colocava a foto do rebento.

E se a gente pensar em penduricalho de espelho retrovisor? Os dados gigantes de pelúcia voltaram na onda do hip-hop. Mas sapatinhos de bebês, cruzes, crucifixos, igrejas inteiras, sapos, corujas e patuás de proteção já assolaram o mercado. Na linha decorativa houve ainda a invasão dos bichos grudados com ventosas esborrachadas do lado de dentro dos vidros, um zoológico inteiro, com ampla preferência pelos macacos. Pareciam aqueles insetos que estouram no vidro nas estradas, mas do lado de dentro. Aí alguém resolveu que o mesmo sistema poderia segurar placas balouçantes "Bebê a Bordo" ou mãozinhas dando tchau. Ou ainda escritos em English: "I`m drive crazy" , "Here is a boy". "To be or not to be".

Anda difícil mesmo é encontrar os adesivos comuns, tipo Contrate sempre um advogado, estudei no MACK, na USP, na FOP, na %$#@*, andei nas trilhas do Jacu-Pitanga, eu fui, eu vou.

"Já fui assaltado" fez muito sucesso também. Não resolveram o problema, mas ninguém avisa mais. Sei lá, vai ver chamava mais a atenção dos bandidos para o otário. Fora que com a violência nas cidades como anda não dariam mais conta da produção.

Nos anos duros os carros pareciam mais uns manifestos ambulantes. Juro: vou falar por mim. Eu tive "No nukes", contra a energia nuclear, "Pela demarcação das terras indígenas", "Anistia Já", "Apóie a Imprensa independente", "Diretas Já", só entre os que me recordo. Aquilo até rendia certa paquera na rua, ou buzinadas solidárias, o lado que valia a pena. Também rendia - claro - muitos problemas com a polícia. "Não sei se te prendo ou se te leio" - hoje usado para o povo todo riscado com tatuagens, à época valia para... adesivos! Precisava ter coragem para usá-los.

Puxa, vejam só, e desculpem os números, todos na casa do milhão: esta semana ficamos sabendo por dados divulgados pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) que a frota brasileira teve aumento de 8,4 % só em 2010. Já são 64.817.974 veículos em todo o país. O Estado de São Paulo lidera com 20.537.980, seguido de Minas Gerais, com 7.005.640), Paraná, com 5.160.354, Rio Grande do Sul, 4.808.503, e o Rio de Janeiro, com outros quase quatro milhões e meio. São mais de 37 milhões de carros. Imagine! Se todos tentassem se comunicar grudando pensamentos ou protestos? Baubau. Cairíam governos, levantes seriam organizados, a ecologia e o meio ambiente triunfariam, solenes, sufocados no meio de tanta fumaça. E todo mundo parado. Nem pra frente. Nem pra trás. Nem pros lados. STOP total, que é o que vai acontecer daqui a pouco.

Claro, há os adesivos religiosos, principalmente cristãos - os poucos que ainda sobrevivem. Nunca vi nenhum ."Mantenha distância: sou filha de Oxum com Iansã", ou o "Caboclo Pena Branca protege este carro. Cuidado".

Ô�?�?pa! O carro da frente andou. Preciso andar também porque o pentelho de trás já está buzinando. O outro idiota que ficou acelerando parado já passou. A louca do celular, que gesticulava parecendo que ia ter um troço, e o outro que escrevia mensagem por celular, mas continuou teclando, passaram. O que tinha acontecido? Nada, só os tanques, os tais blindados, que um monte de gente faz só para falar que tem grana, estavam parados na fila dupla de um restaurante, sendo manobrados por verdadeiras toupeiras. Ah! Se essas pessoas soubessem o que esses caras fazem com o carro delas ...

Foi só isso que roubou muito do meu tempo, precioso tempo, parada no trânsito.

São Paulo, kms e kms de lentidão todos os dias, 2011, mas aquela carinha feliz.


(*) Marli Gonçalves é jornalista. Tá bom, eu conto. No espelho tenho pendurado um fluorescente homenzinho verde, símbolo do sinal de trânsito alemão de pedestres. E o meu protetor de pneus é demais. Vocês precisam ver. É a Bettie Page, a vedete, em uma pose daquelas. Deve ser bem bom ficar parado atrás de mim.

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