sábado, 2 de outubro de 2010

O jeitinho brasileiro de ser. Por Marli Gonçalves

Somos mesmo um povo muito louco. Nos matamos pelo tanto faz, tanto fez. Adaptamo-nos a situações impensáveis, e aí reside o perigo. Ser unanimidade é tão fácil quanto ser burro, ou palhaço, ou erva daninha, tiririca da vida. Tudo passa, tudo passará. Qualquer coisa vem e vai


Somos todos hábeis manipuladores, com nosso jeitinho brasileiro de ser. Beijinho, beijinho, tchau, tchau. Há meses acompanhamos as intrépidas eleições, seu formato, seus candidatos a qualquer coisa. Alianças impensáveis foram feitas nas nossas fuças. A propaganda intensa, cheia de símbolos, martelada dia após dia na cabeça, vendia e vende a nossa alma. E todos se vangloriam. Com o que der, conviveremos.

Continuamos resolvendo tudo de última hora, de forma casuística. Mas quem se importa com isso? Desde que resolvam... "Alguém", resolvam! Eles fazem. Eles decidem. Até candidato Ninguém apareceu. Piada pura. É tudo solto, frouxo, descompassado. O comunista de ontem, o direitista de sempre, os guerrilheiros e combatentes do amanhã, os tribalistas, zeros à esquerda, cabeçudo, cabeçudas de toda ordem instalados para onde a gente olha. Ocupam espaços em cadeiras e horizontes. Ninguém consegue fugir, a não ser dando um jeitinho - de não ver.

Nosso jeitinho vem sendo objeto de estudos e estudos. Uns dizem que o usamos para ludibriar, enganar, tripudiar. Outros que o jeitinho maravilhoso é banho de criatividade, de inventividade. Os dois lados têm razão. Porque o jeitinho brasileiro é usado para sobreviver, fator que nos impele a usar todas as forças disponíveis. Sem chegar à conclusão alguma, nunca. Mas dá-se um jeito.

Nos últimos dia s, apenas para ilustrar, vimos um candidato jogando a própria mulher aos leões nas eleições do Distrito Federal, e a coitada aceitando. Vimos que a menina de vestido rosa quase massacrada na universidade, bundinha para a Lua, chegou à tevê, menos de um ano depois. Vimos um poste começar a falar. O careca assustador de outrora sorrindo e cantando, embalando criancinhas. A frágil cabocla falando mais do que os povos da floresta em noite de Lua cheia. E o velhinho milionário da esquerda satirizando até a palavra de Deus.

Vimos homens de toga e peruca discutindo e mudando lei em voga, no meio do curso do rio, tentando servir de balsa para atravessar o poder para o outro lado do rio. Vemos contratos não serem respeitados, dessa mesma forma, no meio do caminho. Tinha ou colocam uma pedra. Não há mais a palavra dada, o rigor moral, o compromisso homem a homem. Fidelidade, nem pessoal, amorosa ou partidária. Sempre se dá um jeitinho.

Ainda bem. Ainda bem? Desculpem, mas acho que um dos motivos pelos quais gostamos dessa terra de samba do crioulo doido só pode ser esse - o jeitinho. É pelo menos o único jeitinho que temos de dar para nos conformar porque há tantos anos parece que a situação não muda. Fim dos 80, começo dos 90: Delfim, Maluf, Sarney, Collor, Lula, Serra incluso. Fim da primeira década do século, quem? Delfim, Maluf, Sarney, Collor e Lula. Serra incluso. O que apareceu a mais de diferente só fez piorar a sopa de letrinhas. Ou deram um jeitinho de abafá-los, ajeitando os ajustados.

Digo tudo isso para acalmar o seu coração. Aconteça o que acontecer, daremos um jeitinho. A partir daí criaremos um movimento popular, ou cultural, ou musical. Uma moda. Uma batucada. O mundo nos inveja, e sabemos disso, dando um jeitinho de nos infiltrar em todos os seus cantos, legal ou ilegalmente. Os corrupinhas vão continuar suas atividades, e vamos continuar dando um jeitinho de fazer que não existem as violências e violações. A miséria grassará nas esquinas que a gente pula. O país tem fome, tem abortos e está desassistido.

Mas não querem que ninguém fale nisso. Para não estragar o jogo do jeitinho.

Não sei se vocês vêm percebendo, mas o jeitinho brasileiro quanto mais conhecido fica, mais ineficaz. E tem perdido muito a graça porque está sendo usado é para nos embrulhar. De qualquer jeito.

São Paulo, momento eleitoral, morno e ajeitado, 2010.

• (*) Marli Gonçalves é jornalista. Do seu jeito, usa o jeitinho para aguentar ver tanta gente se ajeitando.

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