segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Alcagüete, por Marli Gonçalves



Tem de ser assim, com trema, para aparecer bem terrível e real, monstruoso, tanto quanto seu significado. Resolvi aterrorizar seus sonhos apontando para esse personagem sórdido, que pode estar aí, agora, ao seu lado, na sua cama, na sua mesa, no seu projeto. A palavra chega a ter certa beleza para descrever a mais escrota das profissões, os alcagüetes, ou os dedos-de-cimento-armado, X-9`s, delatores, traíras.

Existem mais sinônimos muito bons: cagüete, uma forma quase que sincopada; língua-nervosa, língua-de-tamanduá, dedo-de-seta, dedo-duro, língua maldita, língua de sabão, corujão. Agora, com a variação Glauber - me perdoem: "uma câmera na mão" ( ou no paletó, ou na gravata, ou na caneta, ou no relógio) e uma "idéia na cabeça", no caso, a sacanagem, a traição, a chantagem e a própria desonra. Quem conhece a Lei do Cão, sabe que não há desonra maior para um bandido que se prezava do que delatar; e que também não há mais saída para o seu destino.
Morto-vivo. Nunca mais aceitará uma bala, nem de uma criança. Todas as balas podem ser traiçoeiras. Sua boca se encher de formigas, olhos furados.
Agora em versão moderna, tecnológica, de alta complexidade, mas a preços acessíveis, os alcagüetes de outrora, que apenas tinham de obter confiança em suas revelações com as palavras, agora as armam, em videoteipes, víboras mortais, premeditadoras do que pretendem atingir, dizer, fazer, e quem exatamente mostrar, em imagens coloridas, sons absolutamente audíveis, show de tevê. Todos podem estar gravando, sendo gravados. As paredes podem ter olhos e ouvidos. Os papéis, copiados e fotografados. Uma resposta a uma pergunta boba, mas se maldosamente bem colocada, pode colocar até os santos em enrascadas, nas armadilhas.


Não podemos aceitar complacentes, achar isso bonito, nem quando eles, os delatores, nos entregam encomendas de pacotes do Mal que pretendemos combater. Porque a tendência perigosa se espalha. E aí ninguém mais terá - se é que há alguém que ainda tem - paz. Também não me venham com a conversinha fiada de que "quem não deve não teme". Nunca ninguém aprontou para cima de você, de tal forma que quando soube quase não conseguiu escapar?


De certa forma, há anos já passei por isso e se não fosse de circo, não teria escapado ilesa se não contasse realmente com a verdade e com uma forma muito transparente de agir, e com quem em mim confiasse, mesmo. E digo, não foi uma, nem duas vezes. Dependendo da língua maldita, uma história inventada é capaz de criar uma história completa, real e factível, principalmente para uma média de pessoas soap novela das oito. Em meu trabalho diário, noto que cresce a olhos literalmente vistos o problema, junto com o culto às celebridades e às derrubadas, mais rápidas que flashes. Isso, todo dia. Há pouco um ator global numa casa de swing cantando justamente, digamos, a parte berinbela de um casal quase virou panqueca. Dizem que há fotos.


Inveja, ódio, ciúme, compensação financeira, sordidez e agora delação premiada são as raízes dos vermes terríveis, parasitas sem qualquer gota de caráter que maquinam contra todos. A boa e compreensiva esposa amanhã poderá ser uma bruxa má, principalmente se gorda e feia for trocada pela jovem maquiada, após anos construindo o sucesso do cidadão. Você mesmo pode até acabar estrelando - sem querer - uma fita pornô! Isso quando as quatro paredes resolvem filmar é uma beleza... Até filhos, pensem, andam perigosos. O que dizer de parceiros de ocasião?


Não deixa de ser cagüetagem a ex-esposa vir a público contando coisas íntimas. Nem caia totalmente nessa de colaboradores arrependidos com seus crimes e em prol da democracia e do restabelecimento da verdade e da justiça. É duro, mas você tem de me ouvir, ou ao menos pensar sobre isso um pouquinho, para tomar posição. Veja bem, precisa ficar bem claro, não estou defendendo a ilegalidade ou a corrupção, ou qualquer coisa parecida. Estou defendendo a necessidade de haver algum caráter; até certa ideologia precisa existir, mesmo que no pior bandido. Isso o tornará menos mau, não o contrário. Dancei eu, dança tu, dançai todos? É feio. Quem sobreviveu aos anos negros deve lembrar-se da firmeza de alguns de seus companheiros com carinho e jamais esquecer.


Perceba que sempre essas coisas só aparecem não é porque foram investigadas, realmente, mas quando a chantagem não deu certo, parou de dar certo ou quando a divisão deixou alguém de fora. Ou, instado pelo outro lado, bandido sem palavra que promete que dá, mas fica devendo, dá chapéu. Vingança é prato que se come frio. Nesse meio tempo, os caçadores de imagens & sons trançam a teia mortal para a mosquinha que se achava.


Fora babás flagradas espancando pobres bebês, empregadas surrando e batendo na cabeça dos velhinhos, e as que funcionem para a segurança, não há muita coisa positiva vindo dessa bisbilhotice geral que se transformou o mundo, inclusive a web. Salvem a web! Salvem o email! Essa seria uma boa campanha mundial para acabar com os spams, vírus e cavalos-de-troia invasores. Contra o aquecimento virtual que pode marcar seu fim.


Até aí, eles estão lá fora, esses inimigos.


Agora, imagine que abriu pessoalmente a porta para a víbora entrar. Confiou-lhe seus segredos e sentimentos mais íntimos, seus medos e suas defesas, seu amor e carinho. Pior do que ratazanas te roubam, te matam, te massacram, deixando-o falido. Levam todas suas referências, te arrasam. Devem ser recompensados? Não, não podem, por pior que seja. Vendidos, vendilhões.


Sabe, agora pensei numa coisa terrível. Quando um grande amor trai, e sempre é preciso que haja outro alguém, não estará justamente te delatando aqui e ali? Estará dizendo as mesmas palavras doces, rezando a mesma oração? Falando mal? Falando bem? Falando a verdade?

São Paulo, primeira quinzena da contagem regressiva. Qual será a próxima atração?

Marli Gonçalves, jornalista. No meu campo de trabalho quem faz tudo direito - e eu me orgulho muito disso - tem a obrigação de manter o que chamamos sigilo profissional, inviolável, e pela palavra. Nesse caso, somos um pouco padres, médicos, terapeutas, e latas de lixo.
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