domingo, 12 de julho de 2009

Comentário ao artigo de Saulo Ramos pró Sarney

"Pode repetir-se o castigo", artigo de Saulo Ramos publicado pela Folha de São Paulo na seção Tendência e Debates.O artigo está na íntegra lá embaixo, por favor, leiam-no e depois, meu comentário ao mesmo.
Mara


Lí o livro de Saulo Ramos (Código da Vida) e fiquei incomodada com o fato de um jurista de tal renome , um ex-ministro da Justiça pudesse ter visões tão contrárias de duas personalidades tão iguais, a saber: Lula e Sarney, dois ególatras sem limites nem freios na obtenção de seus sonhos delirantes. Para Saulo Ramos, Lula é o maior responsável por todos os fatos nebulosos ou escabrosos que aconteceram durante seu governo. Já Sarney é descrito com pinceladas amorosas e coloridas por um Saulo enternecido quando elabora a imagem da personalidade do amigo pessoal . Sarney é impoluto, íntegro, isento de paixões menores e vaidades...Sarney é modesto, desapegado e devotado ao sacrifício...ora,ora...é demais!

Saí da leitura com uma pulgona gorda atrás da orelha...parece que hoje eu sei quem é Lula, sei quem é Sarney, mas não sei mais quem é realmente Saulo Ramos.
Neste artigo , logo de cara , Saulo faz uma incorreção quando afirma que "PT e PSDB saíram juntos do lado contrário (de Sarney)...e que mesmo assim Sarney ganhou a eleição para presidente do Senado. Ora, pois a verdade é que se sairam juntos, logo o PT jogou às piranhas o petista Tião Viana para acabar apoiando Sarney...o que lhe garantiu a vitória. Foi o PT que elegeu Sarney, sem dúvida!!!

Em seguida afirma... "a despeito de sua história de serviços prestados ao Brasil"..."de uma uma vida parlamentar de mais de 30 anos sem nenhuma acusação"...Sarney agora é alvo de todas as raivas.
Ora ...sempre se soube que Sarney & Famiglia se apossaram do Maranhão por vias tortas, becos escuros e lamaçais...e se nunca se fez acusação formal à eles foi porque um forte sistema de compadrio e afilhamento formou uma teia que sempre soube amarrá-las e mantê-las bem presas. O serviço que Sarney prestou ao Brasil qual foi ? Terá sido o fato de ocupar tão providencialmente a presidencia da república por ter morrido Tancredo? Melhor seria se descrevesse o serviço que o Brasil sempre prestou a Sarney, filhos, noras , netos, afilhados, amigos e quetais...

Saulo é um homem de lei...um jurista , mas neste instante ele está se indignando contra as denúncias ao seu amigo Sarney. Prefere talvez que elas sejam abafadas , ignoradas, jogadas para o fundo de uma gaveta como foram as investigações do caso Celso Daniel e que o próprio Saulo, em seu livro tanto condenou? Estará Saulo usando de 2 pesos e 2 medidas na avaliação de fatos que exigem deste jurista a mais rígida imparcialidade? Antes de ser amigo de Sarney, Saulo é um brasileiro , ou não?

Afirma Saulo que a vida pública de Sarney foi sempre pautada pelos valores da democracia. Poderá ele então explicar o que existe de democrático no gesto do maranhense Sarney se eleger pelo estado do Amapá? O que existe de democrático em Sarney comprovadamente praticar nepotismo descarado, cruzado ou enviesado...para agraciar apadrinhados , parentes e amigos de amigos distribuindo benesses advindas do pagamento de nossos suados impostos? É democrático sua fundação receber verbas da Petrobras, sem passar pelo crivo de licitação, através da Lei Rouanet, e depois Sarney desviá-las para suas próprias empresas, ou até mesmo para empresas fantasmas, ou ainda contratar serviços que nunca prestados à fundação mas foram pagos?

Saulo ainda nos ameaça com a possibilidade de estarmos a cometer um erro ao desejarmos que Sarney se licencie de seu cargo enquanto se procedem as investigações às denúncias.. e que em assim fazendo podemos estar preparando a eleição de um "novo Collor". Estará ele querendo comparar quem com Collor? Dilma ou Serra ? Pelo apoio que Collor hoje dá à base aliada de Lulla, deve então estar se referindo à Serra mesmo. Interessante sua colocação...digna de ser meditada....afinal, a quem mais serve maravilhosamente bem esta ameaça de Saulo a não ser à própria Dilma e ao PT?

Mas isto é que é ser amigo do homem...a estatura de um Saulo Ramos colocada, através de um grosso livro e de um providencial artigo à serviço de um Sarney combalido, chamuscado e enlameado, e talvez servindo também o próprio PT, porque não?

Sarney não é o único do Senado que tem que ser alijado definitivamente da política por ainda insistir na velha prática do compadrio ...mas ele é a bola da vez, até porque está sentado na cadeira de presidente da Casa ajudando a melhor poluir todo o ambiente político...seu afastamento é emblemático para mostrar a nova direção ética a ser tomada pelo Senado.

Sarney e Saulo...dois amigos .

Mara Montezuma Assaf / SP



TENDÊNCIAS/DEBATES- FSP 12/07/09Pode repetir-se o castigo
SAULO RAMOS
A despeito de sua história de serviços prestados ao Brasil, Sarney tornou-se, de uma hora para a outra, o alvo de todas as raivas
SOUBE QUE José Sarney foi avisado para não se candidatar a presidente do Senado porque o mundo desabaria sobre ele como um vulcão de coisas impossíveis. Já às vésperas das eleições para a Presidência da República e para o Congresso, com renovação de dois terços do Senado, a empreitada seria temerária. Ele seria o primeiro alvo. Aceitou a candidatura já provocando o primeiro impossível: PSDB e PT juntos do lado contrário. E cometeu a segunda impossibilidade: ganhou as eleições. A despeito de sua história de serviços prestados ao Brasil, a despeito de uma vida parlamentar de mais de 30 anos sem nenhuma acusação, tornou-se, de uma hora para a outra, o alvo de todas as raivas, a Geni de todos os ansiosos para virar notícia de jornal, com acusações de todos os naipes alinhavadas, umas atrás das outras, para alimentar um noticiário continuado contra sua permanência no cargo. Houve uma época em que todo o mundo acusava Sarney de haver distribuído rádios e televisões aos constituintes para obter um mandato de cinco anos. Depois ficou demonstrado que seu mandato era de seis anos e que a acusação era ridícula, pois ele renunciou a um ano. Ninguém mais falou no assunto. Mas, agora, o que acontece agora? Seria simples revanchismo dos derrotados na eleição da Mesa Diretora, dentre os quais há um especializado em vinganças miúdas? Ou, tendo o início nessa motivação, vislumbrou-se atribuir os escândalos do Senado concentrados a um único senador para atingir a estabilidade da instituição e evitar a apuração das responsabilidades por atos acusados de ilícitos e que ele próprio mandou apurar? Ou, como ocorre quando aguçadas ambições políticas, sem respaldo popular, desesperaram-se e pretendem tumultuar a governabilidade do país para colher frutos eleitorais no próximo ano, que os ameaça com estiagem de votos? Ou é tudo isso conexo, misturado, conjugado e orquestrado? A vida pública de Sarney foi sempre pautada pelos valores da democracia. Daí seu apego ao diálogo, ao entendimento, às formas consensuais para a solução dos problemas. Com esse comportamento, fez com que o país, em momentos relevantes de sua história, se reconciliasse e reencontrasse o seu destino de grande nação democrática. No momento em que o Brasil esteve na iminência de sofrer um retrocesso para o totalitarismo, apaziguou as partes em conflito e administrou com humildade os ânimos extremistas que desejavam impedir a volta do Brasil ao Estado de Direito. Convocou a Constituinte, ajudou, com serenidade, os trabalhos da institucionalização do país submetida a enormes embates e tensões. Foi acusado de não dar murros na mesa. Soube conduzir o Brasil para a legalidade estabilizada, da qual desfrutam as novas gerações com plenas liberdades públicas e políticas. Para que serviu tudo isso? Para os jornais aceitarem futricas plantadas sobre atos secretos do Senado ocorridos durante os últimos 15 anos como se todos tivessem sido por ele praticados nos últimos 15 dias? Não se pode admitir que uma obra dessa grandeza e de mais de meio século seja, em minutos, esfarelada por intrigas de interesses subalternos, provocadas por ambições eleitorais a serem tentadas no próximo ano, quando, passadas as eleições, ninguém mais falará em nada nem o acusará de coisa alguma, como não o fizeram durante 30 anos de Congresso e não o haviam feito enquanto não se tornou presidente do Senado em véspera de ano eleitoral. Culpado é o Sarney. Fora, Sarney! Mas como chegar a essa conclusão doidivanas se por ele foram acionados todos os mecanismos de controle e investigação disponíveis, o Ministério Público, o Tribunal de Contas da União e a Policia Federal, para investigar tudo naquele templo de mistérios que é o Senado Federal? Sarney tem algo que não agrada ao imediatismo da crítica popular. Quer fazer tudo dentro da lei porque a lei é a razão isenta de paixão. Contra isso levanta-se o ódio de algumas pessoas, sob a hipócrita justificativa de que a isenção seria assegurada pelo seu afastamento, e não pela aplicação do direito. Na Roma antiga, Sêneca já advertia: a razão quer decidir o que é justo, a cólera quer que se ache justo o que ela já decidiu. Nosso país precisa aprender com as lições do passado. Sarney já foi submetido a um linchamento igual, pelos mesmos políticos, os mesmos veículos de comunicação, com pequenas variações, o mesmo estilo de acusações destituídas de seriedade até pelo volume crescente e diário da campanha sistemática sem verdade alguma que se comprovasse. Tudo igual. O resultado daquela primeira vez levou o Brasil a ser governado por um Fernando Collor. O castigo pode repetir-se. JOSÉ SAULO PEREIRA RAMOS, 80, é advogado. Foi consultor-geral da República e ministro da Justiça (governo Sarney). É autor do livro "Código da Vida".
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