sábado, 28 de fevereiro de 2009

INCORPORADOS À PAISAGEM


Maria Lucia Victor Barbosa
27/02/2009

A entrevista concedida pelo senador peemedebista, Jarbas Vasconcelos, à revista Veja de 18/02/2009, causou profundo incomodo não declarado, mas percebido, ao PMDB, ao PT e demais partidos.
O senador nada disse que já não tivesse sido dito, mas o fato de ter desferido suas críticas numa revista nacional do porte da Veja, o peso de sua trajetória política e de sua importância dentro do PMDB, ajudaram na repercussão de suas palavras, especialmente num momento em não existem no Brasil, como venho sempre repetindo, partidos, instituições ou lideranças de oposição, exceto posturas isoladas como, por exemplo, a do senador paranaense, Álvaro Dias, que se destaca no PSDB, partido que mais parece linha auxiliar do PT.
Justamente por conta da inexistência de reais oposições, que se tornaram importantes as declarações de Jarbas Vasconcelos. Ele quebrou a mesmice da bajulação, da sujeição, do oportunismo, da politicagem reinante e ergueu sua voz que ressoou no silêncio conveniente dos salões palacianos onde comanda qual gigantesco Leviatã, o Executivo.
O político pernambucano que foi duas vezes prefeito, duas vezes governador e no momento é senador, mostrou-se desencantado a ponto de dizer que não tem mais nenhuma vontade de disputar cargos. O tempo dirá se isso vai prevalecer. Em todo caso, o desencanto do senador Jarbas Vasconcelos tem várias origens:
A primeira deriva da conduta do PMDB, que ele diz ser hoje “um partido sem bandeiras, sem propostas, sem um norte, uma confederação de líderes regionais” e, também, “uma máquina de clientelismo”. Na verdade, características de todos partidos brasileiros.
Outra fonte do desencanto do senador Vasconcelos é claramente estampada na entrevista com relação ao PT, mais especificamente, com relação a Lula da Silva. E coisa mais impressionante a ressaltar: impressiona ser o senador o primeiro a dizer que o rei está nu.
Até agora, ninguém ousara desfazer a “blindagem” cuidadosamente construída pelo PT em torno daquele que é sua garantia de continuidade no poder. Nem o ex-deputado Roberto Jefferson, que escancarou os porões fétidos do “mensalão” e que entrou para a história ao ordenar ao homem mais poderoso da República, José Dirceu, que deixasse rapidamente o cargo para não comprometer o chefe, no que foi prontamente obedecido, ousou acusar o presidente da República de qualquer falta. Pelo contrário, em sua visão Lula da Silva era um homem bom, inocente, que de nada sabia, e que chorou ao saber das travessuras dos seus “aloprados”.
Já o senador Jarbas foi claro ao dizer em trechos da entrevista: “Com o desenrolar do primeiro mandato, diante dos sucessivos escândalos, percebi que Lula não tinha nenhum compromisso com reformas ou com ética”. “O mundo passou por uma fase áurea, de bonança, de desenvolvimento, e Lula não conseguiu tirar proveito disso”. “Esperava-se que um operário ajudasse a mudar a política, com seu partido que era o guardião da ética. O PT denunciava todos os desvios, prometia ser diferente ao chegar ao poder. Quando deixou cair a máscara, abriu a porta para a corrupção”.
O senador foi bastante cuidadoso ao dizer que “a corrupção sempre existiu, que não foi inventada pelo PT e por Lula”, que está impregnada em todos os partidos, inclusive, no seu, mas, acrescentou: “é fato que o comportamento do governo contribuiu para a banalização da corrupção”.
Vasconcelos não poupou críticas ao assistencialismo e ao marketing de Lula que mantêm sua popularidade em alta e afirmou: “o Bolsa Família é o maior programa oficial de compra de votos do mundo”. Sem dúvida, uma ofensa de lesa majestade, que deve ter soado insuportável para o PT que, de modo inusitado não esboçou reação, assim como não reagiu o PMDB quando seu correligionário, inclusive, apontou de modo nada elogioso para figuras importantes do partido, tais como, José Sarney e Renan Calheiros, sendo que se referiu a este como “o maior beneficiário deste quadro político de mediocridade em que os escândalos não incomodam mais e acabam se incorporando à paisagem”.
Desencantado e frustrado se mostrou também Jarbas Vasconcelos por não conseguir dar no senado a contribuição que gostaria, na medida em que se tornou um dissidente do seu partido.
Mas, quantos brasileiros estão desencantados por se sentirem incapazes de alterar o quadro vigente de corrupção, de mediocridade, de populismo? Quantos sonham em resgatar valores que impeçam os escândalos se incorporem à paisagem? Sem dúvida muitos, à espera de quem unifique sua insatisfação. O senador Jarbas Vasconcelos deu a partida para que se manifeste a oposição. Que outros o sigam, para que a paisagem comece a mudar ainda que lentamente.
Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.
mlucia@sercomtel.com.br
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