domingo, 25 de março de 2012

Novelos e novelas sem fim, por Marli Gonçalves

A novela sempre chega ao fim? Às vezes a impressão é que há algumas que nunca fecham e ficam ali, fazendo história, livros e tragédias. Tem as que já começam mal. As que ficam chatas, muito chatas. As danadas das repetitivas. As reprises. E as penico sem fundo, intermináveis. As que a gente já pega quando estão pelo meio. Muitas delas a gente vai indo, vendo, até que um dia deixa de lado igual livro começado, sanduíche mordido. Só que justamente quando perdem audiência é que mais personagens acabam mortos.
Nossa! Vou embaralhar. O novelo das novelas. Desenrola. Os autores pensam seus personagens, com suas bondades e maldades. Como bem resume um amigo, em todas tem sempre um filho que não é filho da mãe que não é mãe, ou do pai que não sabe que é dele o filho da mãe, e o filho descobre que não é o filho, tudo agora também em versão trans. Tem sempre uma vingança, núcleo pobre, núcleo rico, ou o rico que fica pobre enquanto o pobre sobe na vida. No caminho, um ou dois golpes de estelionato, uns crimes tipo assassinato, armadilhas, traições, empregados linguarudos, gostosas e criancinhas promissoras para o elenco do futuro. Animaizinhos são mais difíceis, tadinhos. Alguns somem. Aconteceu agora mesmo com os dois poodles da madame, o Dolce e o Gabbana. Escafederam-se. Devem ter sido torrados pela Teresa Cristina; não é, bebê?

Tradição nacional, novelas, novelos e novelas sem fim. Quer melhor do que um enredo que junta o filho de um bilionário com uma bombshell¸ que tem nome de deus nórdico e super-herói, cabelo de Príncipe Valente, pilotando quase que "um batmóvel" na estrada escura de um domingo, e digamos, "colhendo" e matando um negro e pobre transitando trôpego na estrada com sua bicicleta velha? Nossa fantasia vai lá em cima, e não há o que se diga. A história está carimbada. Com o detalhe: todos aguardam a fala da deusa mãe. E ela sumiu. Aí tem, vamos pensando, formulando as mais estapafúrdias teses, explicações e lendas, como se não bastasse a própria realidade mais dramática do que qualquer invenção.
Outro exemplo: dona de casa comum sai pé-ante-pé na madrugada de uma sexta-feira 13 e aparece morta, desfigurada, numa estrada, ao lado de uma pedra conhecida como da Macumba, sempre cheia de ebós, oferendas. Ouvi de tudo: de magia negra a vingança, oferenda humana, feitiço. Meses depois o veredicto finaliza o enredo: ela se matou, ingerindo chumbinho de matar rato. Caiu e foi mordida e desfigurada por cães vadios famintos.
Perícias demoram, investigações demoram (quando ocorrem, sempre só se a pessoa ou sua família é mais conhecida, senão vão direto para a gaveta). E mesmo assim, sabendo que tudo pode não ser o que aparenta, que circunstâncias são infinitas, ainda tem gente que não sabe ou entende a importância do direito de defesa, do julgamento até o final, de verificação completa. Gente que já pega o dedinho em riste e aponta os culpados. Deus me livre! Já pensou? Você está por ali, nem sabe que havia uma mulher, passou, sei lá, para acender uma velinha lá na pedra, alguém viu, misturou tudo e te acusa? Vai provar que a vela era branca e o pó era açúcar!
As novelas que vemos - algumas que acompanhamos - sempre têm vários lados. Muitas, tal como os truques dos escritores, acabam, mas sem fim, com personagens que eram dados como mortos aparecendo na última cena - embutindo dúvidas, primeiro sobre a possibilidade de continuação, 1, 2, 3 até que esgotem com algum título tipo "a Batalha Final". Há ainda o truque do sonho, que eu pessoalmente detesto. A coisa vai indo, indo, até que a pessoa acorda e mostra que tudo não passava de um enorme pesadelo. Ou não. Tenho ódio desse recurso baixo e barato.
Na realidade está igual. Tem assistido a "O Mensalão?" "A Volta dos que não foram". Em Brasília, inclusive, neste momento está em cartaz uma novela e tanto, romance com pitadas de documentário. Casos tão comuns que há muitos anos tenho amigos que mantêm quase pronto o esboço de várias outras histórias parecidas, que eles vão retocando, colhendo. O título: "A República de cuecas", onde toda a trajetória nacional, política e econômica - eles mostram - pode ser reconstruída a partir dos lençóis e outros apetrechos e manhas institucionalizadas; um dos mais conhecidos poderia até ganhar um capítulo chamado "Contrato de Núpcias".
No seu aparelho ou no pay-per-view diariamente, acredito, vêm sendo transmitidas muitas outras novelas sem fim. Não assiste a "As intermináveis mortes na Síria"? Em cartaz: "Nuclear e norte-coreana". "Um presente de grego", "Morte no Egito em chamas", "A Copa do Mundo e o tempo", "Retratos de um hospital", "Beber, sim, jogar¸ jamais", "Queda de braço no Planalto Central".
Alguém aí sabe qual foi o "The End" das novelas "Choque na Austrália", "Morte no parque", "Jet-Sky assassino"?
Ah, ainda estão em cartaz!?! Plimplim.

São Paulo, "Amor de Candidatos", 2012
• (*) Marli Gonçalves é jornalista. - De vez em quando brinca e se auto-intitula parte das brasileiras do momento, estrelando como "A abandonadinha do Ibirapuera". Novamente vai tentar ficar sem assistir à nova novela de ficção das nove, e aproveitar o horário para ver e criticar as outras novelas sem fim que estreiam diariamente.
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