quarta-feira, 20 de julho de 2011

Seis meses de esperança levadas pelas águas da corrupção

Por Lígia Bittencourt*

No último dia 12 de julho, completou-se seis meses do maior desastre natural ocorrido no país: as chuvas da região serrana, no estado do Rio de Janeiro.
Após seis meses, deparamo-nos com os sinais da tragédia por todos os lados. Bairros completamente destruídos, onde ainda repousam muitos corpos, continuam sem sinal algum de reconstrução. Pessoas solidárias, mas indignadas com as autoridades municipais, manifestam-se nas ruas exigindo que algo seja feito. Não se fala em outra coisa em ambas as cidades mais afetadas, Nova Friburgo e Teresópolis, e a pergunta que não quer calar ecoa pelos belos vales e montanhas: onde foi parar o dinheiro que deveria estar sendo utilizado na reconstrução de ambas?
Em seis meses, muito pouco foi realizado, e os recursos disponibilizados não foram utilizados corretamente. Políticos, sem cerimônia alguma, contrataram obras sem licitação, inclusive de empresas de fachada, aproveitando-se do estado de calamidade pública decretado na ocasião.
Quando da tragédia, a população se uniu e foi à luta, ajudando na limpeza, no amparo aos vizinhos que tiveram suas famílias destroçadas pelas águas, que perderam entes queridos, que perderam tudo, mas não a esperança por dias melhores. A esperança, essa os políticos estão tratando de enterrar.
Ao chegar a Nova Friburgo, já nos deparamos com as fendas de terra vermelha nos morros que circundam o centro da cidade, um dos lugares mais afetados. Na praça do Suspiro, a igreja de Santo Antônio está sendo lentamente restaurada. Localizada bem ao lado do que um dia foi um dos pontos turísticos mais procurados, o teleférico, a igreja ficou parcialmente destruída! Nada comparado ao estrago daquele ponto da cidade, onde a água chegou a cinco metros de altura, e a lama desceu, levando e destruindo o que havia pela frente. Meia dúzia de profissionais podem ser vistos na encosta, cavando canaletas, e uma malha de aço será colocada para a contenção da mesma. Se chovesse forte hoje, toda a obra seria perdida, visto que, certamente, tudo viria abaixo.
Converso com um garçom de uma choperia, que não quis se identificar, localizada em frente ao que um dia foi o teleférico. Ele tem as imagens muito vivas em sua memória. A tragédia ocorreu às 1h. e 30 min. e ele estava lá. Seus colegas e ele tiveram que literalmente escalar o prédio localizado em cima do estabelecimento para escaparem da água vinda do rio que corta a cidade e da lama que desceu do morro. Perderam, todos, cinco veículos estacionados nas proximidades. Conta, com muita tristeza, a história de um médico da cidade, que perdeu a família toda na tragédia, e virou um mendigo que perambula pelas ruas. Sobre as autoridades, se revolta: “não estão fazendo nada. Tudo o que você vê são pequenas obras, mas no centro. E os bairros, e as pessoas que continuam em abrigos? O que esperar se o dinheiro sumiu?”, pergunta, desolado.
No mesmo dia 12 de julho, o Ministério Público Federal, pediu o afastamento do prefeito Demerval Barbosa Moreira Neto (PMDB-RJ) e do procurador geral do município, Hamilton Sampaio da Silva, mas a Justiça negou. O MPF com a ajuda da Polícia Federal, vasculhou as secretarias municipais, todas localizadas no prédio da prefeitura e retiraram pilhas de documentos e ao todo, foram expedidos 40 mandados de busca e apreensão. Onde estava o prefeito nesse dia? Viajando, diz uma nota da Secretaria de Comunicação do município e retornaria naquele mesmo dia. Se retornou, ninguém sabe, ninguém viu. Onde foram parar os R$10 milhões de reais doados para as vítimas? O prefeito, seus secretários e o procurador devem muitas explicações à população desrespeitada em hora de tanta dor. O prefeito Moreira Neto, é neto de um dos maiores médicos de Nova Friburgo, Demerval Barbosa Moreira, cujo o nome está gravado na principal praça da cidade. Que bela retribuição está sendo dada a um dos mais conceituados cidadãos da cidade. A população, cansada, está se manisfestando nas ruas, e promete exigir que recursos supostamente desviados sejam retornados aos cofres públicos e aplicados na reconstrução da cidade! Enquanto nada é feito, trabalham e a vida vai voltando à rotina, mas o trauma está ali, estampado em cada cantinho da cidade.
Quem chega à Teresópolis, vindo de Nova Friburgo, ao mesmo tempo que fica encantado com as belas paisagens, observa estupefato, a força das águas e a lama que invadiram o cinturão verde localizado naquela área, que hoje se encontra verde novamente, graças aos agricultores que o restauraram. Percebe-se que o curso de um rio foi desviado por pedras que rolaram do alto de morros, mas ao entrar na cidade, parece que nada aconteceu! Deparamo-nos com uma grande avenida, dividida por um canteiro, e que tem como cenário ao fundo o “Dedo de Deus”, um dos picos mais alto da serra. A única obra em andamento que se nota é a reforma do canteiro central, na reta da avenida. Munícipes contam que o que fazem é desconstruir o que já estava construído, trocando tijolos da cor cinza e marrom, por outros de cor marrom e cinza, enquanto milhares de pessoas da própria cidade choram seus mortos, desgraças e a irresponsabilidade de suas autoridades. Nos bairros mais devastados, nada!
Converso com Leda, moradora de bairro próximo ao centro turístico da cidade. Ela me diz que só foi saber da tragédia por volta das 11 hs da manhã: “aqui, no centro, não aconteceu nada. Só quando comecei a ouvir as sirenes e entrei na internet, soube. A cidade estava estranha, vazia. Eu jamais imaginei que isso pudesse acontecer”.
Por sua vez, os munícipes não se esquecem da onda de solidariedade que se viu na cidade, quando empresários e moradores se uniram e ainda puderam contar com entidades de classe e os motociclistas - trilheiros, que chegaram primeiro aos locais arrasados e distantes, onde as pessoas padeciam de todas as necessidades: água, por exemplo.
Converso com Rafael, morador do bairro do Feu, e uma vítima da tragédia: “cheguei do trabalho à meia noite e 50 min. Fui dormir. À 1:30, fui acordado com a voz de minha sogra, aos gritos, pedindo que saíssemos pois estava tudo cheio d'água. Minha esposa e eu corremos para cima, pois morávamos no andar debaixo da casa de meus sogros, e vi que meu sogro estava tentando tirar a água que vinha de todos os lados. De repente, as casas, ao lado da nossa, começaram a cair. Casas, lama, tudo misturado de um lado e do outro. Corremos para a rua, onde outros moradores se encontravam, com suas roupas de dormir, todos assustados e sem saber o que fazer. Nossa casa foi a única que não caiu. As promessas foram muitas, inclusive o auxílio aluguel, afinal, não podíamos continuar em área de risco. No dia marcado para o cadastramento, encontrei uma fila muito grande. Meu sogro estava nela já fazia tempo e olha que cheguei às 8 hs da manhã. Fizemos o cadastramento mas nunca recebemos nada. Meus sogros retornaram para a casa deles, e estão em área de risco e eu e minha esposa estamos pagando aluguel. O que fizeram pelo bairro? Simplesmente nada”, conclui desanimado.
O bairro de Campos, um dos mais atingidos, é uma tumba a céu aberto. Pedras enormes soterram os moradores. Quantos? Ninguém sabe dizer ao certo. O cheiro da decomposição dos corpos pode ser sentido à quilômetros, e o “cemitério” natural lá está, intacto.
O prefeito Jorge Mário (PT-RJ), acusado de receber propina, nega as acusações. No dia 17 de julho, a CGU – Controladoria Geral da União – apontou desvios em obras de reconstrução da cidade. Os recursos destinados ao município pelo Ministério da Integração Nacional, no valor de R$ 7 milhões teriam sido usados por empresas de fachada ou fantasmas. Uma das empresas, a RW Construtora, que antes era uma vídeo-locadora, é uma delas. Ao tentarem entrevistar os responsáveis pela empresa, os repórteres encontram a porta fechada.
A partir dos indícios, as contas do município foram bloqueadas pelo Ministério Público. Praticamente todos os repasses federais não foram comprovados pela Prefeitura de Teresópolis.
A pergunta continua ecoando: onde foi parar o dinheiro?
Esperanças enterradas nas denúncias de corrupção. Presente nos olhares, o desalento, ao ver que seis meses depois, continuam sem nada, precisando de abrigos e da solidariedade da população. Por não serem respeitados pelos representantes que eles mesmo elegeram: os larápios, que não respeitam a dor de centenas de pessoas e que se aproveitam da situação para enriquecer.
Mas o povo é guerreiro, e não vai desistir. A única coisa que precisam, e aliás, o Brasil precisa, é aprender a votar!

*Lígia Bittencourt é jornalista e tradutora técnica
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