segunda-feira, 30 de maio de 2011

Boa-fé, fé demais por Marli Gonçalves

Andar com fé eu vou, mas a fé costuma falhar, sim, quando atingem a sua, diretamente, o que acusamos ao sentir antes de mais nada uma angústia forte e um terrível aperto no coração. Na hora a fé, conceito religioso, pessoal, do caráter, se mistura ao meio jurídico, e de uma forma muito cruel. Porque o problema é que a boa-fé não tem papel; é só a moral que assina, e isso deveria ser reconhecido. Deveria bastar. Mas fé cega, faca amolada.




O sangue corre quente nas veias. Você quase pode sentir o veneno inoculado, circulando por todo ele - o seu corpo - subindo para a cabeça igual se falava antigamente da menstruação, para aterrorizar as meninas sobre o perigo de lavar a cabeça durante o período. O est�?mago levou um soco, o gosto de fel amarga o apetite e estanca até a emissão das boas palavras e sentimentos. Uma enjoativa sensação de que não vale mais a pena acreditar em nada, em ninguém, que o mal está sempre à espreita. Logo há um tipo de solidão que se instala, e o equilíbrio pode demorar a ser recuperado.



A vida toda é mesmo cruel porque feita justamente desses retalhos, costurados com os momentos bons. Mas só depois você p�?de distinguir melhor o que eram apenas nuvens mesmo, sem anjos. Nuvens da sua imaginação e das atitudes desprendidas.



Fé? No amor, sempre acontece assim: você vai e põe fé em pessoas que ama, e elas te deixam a ver navios destroçados, jogados em mar bravio. Já no dia a dia, a gente põe fé nas pessoas com que tratamos olhos nos olhos e quando você não interessa mais, ou a elas só interessa ganhar algum, surgem traiçoeiramente. Evocam leis e contratos que elas mesmas quebraram, ou que apenas podem servir para tentar amparar suas más intenções, na cara dura. Até em família a boa-fé pode fazer quebrar sua cara.

A traição anda com cara lambida, displicente, balançando a bunda, batendo chinelinho, tentando não ser percebida quando ou enquanto te golpeia.



Tem um monte de tipos a tal fé. A coqueteleira do mundo louco mistura de tal forma os conceitos que às vezes nos deixa sem entender bem nenhuma filosofia, seja vã ou utilitária. Fé, para lembrar, é uma opinião firme de que algo é verdadeiro, de forma natural, sem direito a dúvida. Onde uma existe, a outra deveria estar longe. A boa-fé é agir de maneira honrosa, em um contrato oral, em que partes se comprometem com algo, até o fim, mesmo com percalços, sempre analisados em conjunto e em bom tom.



Há a tal fé pública, que parece papel, no fundo inventado porque os homens são desde sempre chegados a traições; costuma ser acompanhada de um carimbo de alguém de fé, mesmo que concursada, que "deu fé!".



Entendeu? Burocracias puras. E em geral burras e inoperantes. Sobe e desce de arquivos.



Juristas de respeito já definiram uma boa-fé, diante de tudo isso: "a virtude de dizer o que acredita e acreditar no que diz". Dessa forma, para eles, na hora do vamos ver deveria ser definido assim: "aquele que se encontra em uma situação real, e imagina estar em uma situação jurídica, age com boa-fé subjetiva". Ou, primeiro, o sentimento. A boa-fé.



Mas a coisa é muito mais complexa. Há o botar fé, expressando o sentimento de confiança, reconhecimento e aceitação. Tomar fé é conhecer, saber. Acredito que pode ser usado em outra forma, variada mas precisa: quando alguém vem para roubar a sua, na mão grande.



Aqui no Brasil, a forma mais conhecida e popular, acho que até mais do que reza, é o "fazer uma fezinha". Na loteria, na buena, na sorte. Nos jogos, loterias, heranças, acertos, ou na má-fé, decerto. Está para nascer Nação igual aqui, onde tanta gente quer mais é ganhar dinheiro fácil, sem trabalho, caído do céu, colhido de árvores, roubado do outro. Ah, leitor amigo! Se você está onde acredito - entre os de boa-fé na vida - sinto muito. Estamos mesmo em extinção.



Paro para refletir sobre tudo o que é relativo à Fé e à Justiça, por mim, no momento às voltas com minha própria incorrigível ingenuidade e boa-fé. Mas também por você, outro brasileiro, que clama por Justiça de tal forma que pode se comprazer essa semana com a prisão - mesmo que atrasada - do velho jornalista assassino; e acabou distraído e não reparou em tantos outros pequenos assassinatos por aí, encontros de pessoas com a morte nas esquinas, dentro de casa, no quarto de um motel. Tudo por causa de um momento de boa-fé que depositaram, abriram "a guarda".



Digo ainda pelos que acreditam que promessas são dívidas e acabam em fila indiana andando atrás de algum pregador. Mas se lá na frente alguém brecou, descobrirá a fragilidade do castelo de cartas que caiu de lá em cima de você. Ou sentiu o tranco, ao contrário, se alguém lá atrás não brecou.



Solução para tantos perrengues, não sei. Mas sei que o que temos de combater, curiosamente também tem fé no nome. A má-fé, um crime, porque é procedimento utilizado só para enganar. Em geral a boa-fé dos outros. Aquela que não costuma ter papel, nem recibo de comprovação.



O problema é que só há uma arma para conseguir isso: a fé. Que costuma falhar, e bem na hora que a gente mais precisa dela.



São Paulo, inferno astral, 2011, e nem estão me dando tempo para pensar nisso




(*) Marli Gonçalves é jornalista. Dedico esse texto às pessoas que mantêm a fé na boa. E à minha amiga e advogada Tania Lis que, com conhecimento, força e jeito guerreiro, confia na boa fé, e desbrava uma forma de demonstrar isso, com alegria e solidariedade tal que recupera a minha.



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