sábado, 19 de junho de 2010

Eu sei o que vocês fizeram no século passado, por Marli Gonçalves

Queria poder incluir uma trilha sonora, especial para esses próximos momentos que passaremos juntos a partir de agora, quando você começou a ler o que estou querendo comentar. E eu quero dizer que, na contramão, acho que estamos andando para trás. Veja se não. Qualquer coisa hoje é qualquer coisa!


Revolucionários, quem? Lady Gaga? Britney Spears? Amy Winehouse? Por causa do quê? Estão inventando algo mais do que modas passageiras, vícios comuns, seus próprios fricotes? O que estão deixando atrás de si, além de lantejoulas, papelotes vazios, copos quebrados e roupas exóticas? Figurinhas e fotos nos álbuns das menininhas. Ok, elas são legais, jovens, ricas, excêntricas, algumas até bonitas ou talentosas. Mas elas passam, e passarão, descartáveis, ou como pequenos verbetes da enciclopédia do comportamento humano.

Por outro lado, e nem precisamos atravessar o Atlântico para achá-las, por aqui e lá tivemos mulheres absurdamente fantásticas, inteligentes, astutas, revolucionárias, líderes. E todas - algumas poucas estão vivas, velhas, pouco lembradas - do século passado. Sim, senhor. Sim, senhora! Do século passado.

Sempre tive verdadeiro fascínio pelos Anos 30, 40, 50. Pela arte, pela literatura, pelas loucuras daqueles malucos sobrevivendo ali entre guerras, mulheres e homens, com sua elegância clássica e chapéus e bengalas e piteiras. Criando grandes histórias, já a partir de suas próprias vidas, assinando seu nome de modo único. Política como arte criadora (inclusive de monstros). Drogas, influências libertadoras e criativas transpostas para a arte de forma quase que suicida, de tão viva; doenças, foice na vida de poucos anos de idade já com muitos feitos, entre tuberculoses e a insanidade simplesmente dita.

Tantas! Pagu, Chiquinha Gonzaga, Luz Del Fuego, Carmen Miranda, Maysa, Dolores Duran, Dalva, Ângela, Elza, Leila Diniz, Cacilda Becker, Carolina de Jesus, Lygia Fagundes Telles - alguns exemplos de marcas desse tempo que never more vêm. Você conhece estas pessoas e, mesmo se é jovem, ouve sobre os seus nomes e feitos. Tanto s! Você fecha os olhos e vê cores, luz, ouve música, sons de alegria, enxuga lágrimas verdadeiras, se impressiona. Sente o cheiro do bom perfume, passa a mão em tecidos finos, conhece obras de arte.

Falo daqueles tempos que também não vivi, mas que são a origem de tudo, e algo mais profundo, mais intenso, passional. Falo da vida. Falo do que vemos, do que estamos ouvindo, hoje, das histórias que lemos sobre um mundo ficando sem graça, sem tempero, sem cheiro que não o de esgoto.

Tecnologia é maravilhosa, assim como a modernidade, o avanço, o progresso. Não pensem que quero o contrário. Mas sinto que podemos estar nos perdendo em meio à sua intensa rapidez e voracidade. Hoje, pelo chão, ficam corpos tatuados ou implantados. Histórias efêmeras. Nem a tatuagem é mais o que era - atitude, ou raiva. Ou a marca dos deserdados e excluídos da sociedade, dos párias marcados a ferro e fogo. Imagina a pele branca de Isadora Duncan toda m arcada?

Imagina algum outro alguém com peito e bunda e coragem para criar uma ilha, um partido e declarar uma filosofia, como Luz Del Fuego? Imagina a beleza de Carmen Miranda, alta nos seus tamancos, cantarolando: "Eu dei! O que foi que você deu, meu bem?". Oh, Billie Holliday, Josephine Baker, Janis Joplin, Edith Piaf, Maria Callas - que falta! Anais Nin, Dorothy Parker, e, por que não? - Adelaide Carraro, Cassandra Rios? Não tem mais Benazir, Indira, Golda, Margareths, Evitas, Dianas, nem Imeldas, nem Cocos, nem bolsas de Soraya ou Farah Diba.

Não meço se fizeram bem, mal, certo ou errado. Só que naqueles momentos que viveram, entre homens, fatos, revoluções, censura, perseguições, fome e preconceitos, foram fontes incansáveis de energia. Para morrer, capricharam. Assassinadas, suicidadas, doentes por amores impossíveis, em meio às suas próprias aventuras, altivas. Algumas divas, mais do que outras, sumiram, tornaram-se transpa rentes, recolhidas, deixando apenas a existência e suas imagens conservadas nas nossas vidas, como Betty Page, a vedete número 1.

Quantas histórias fascinantes! Falo das mulheres, e é porque sempre foi por nós, mulheres, que dediquei admiração crescente. O outro sexo também hoje está sem graça, e os exemplos para referência seriam tão fortes como a lembrança do requebrado másculo de Elvis, a boca carnuda de Jagger, o peito nu de Robert Plant, os cachinhos de Roger Daltrey em Tommy. Os voleios de Barishnikov, Nureyev. O olhar de paixão de Brando, a beleza mítica de Alain Delon. Os bigodes de Dali, os pincéis de Picasso.

Gostaria de comemorar avanços mais do que fundamentais que conseguimos dia após dia. Mas não vejo por que eu não possa desejar mais de tudo isso. Vejo a foto de Dilma entre os homens do Presidente, e não a vejo se destacando entre eles, a não ser pela empáfia. Vejo lindas atrizes, coitadinhas, chegando para contracenar com Fernanda Montenegro, Marília Pera, Cleide Yáconis. Lindas continuam, salvo raras exceções, ofuscadas pelo verdadeiro talento. Vejo Danielas, Ivetes, Claúdias em todos os lugares. Mas foi Rita Lee a ovelha negra. E é Hebe Camargo quem pilota o sofá tentando se manter em algum horário, guardando sua biografia de ouro.

São Paulo, 52 anos depois de 1958, quando abri os olhos e comecei a contagem.


Marli Gonçalves, jornalista. Na torcida por um Brasil, campeão de gente boa, terra de pessoas admiradas por seus talentos. Não podemos nos contentar com qualquer coisa. Devemos exigir o melhor.

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