sábado, 22 de maio de 2010

Os nomes das coisas e as coisas dos nomes, por Marli Gonçalves

Todos têm uma linguagem particular, um dialeto especial para falar e se entender com cada uma das pessoas e coisas com que convivemos. Trocamos as palavras, descrevemos imagens, usamos referências. Enfim, falamos em códigos, e cada vez mais faremos isso, com o crescente cerco e invasão à privacidade. Mas também porque é muito divertido trocar uns nomes.


Há mais de seis anos, quando estou no trabalho com o Carlinhos Brickmann, nenhum dos dois faz esse ato inglório de "ir ao banheiro", essa coisa tão popular. Um avisa ao outro que vai ver a Doutora Raquel, conversar com a Doutora Raquel, receber um fax ou e-mail da Raquel. Sem mais detalhes, por favor. Só para você entender, Raquel foi uma douta-especialista-cagaregras que conhecemos juntos, mas tão chata, tão chat a, que dava até dor de barriga cada vez que precisávamos ouvi-la. Uma coisa meio Suplicy, Agarol, óleo de rícino. Que, entre nós, virou linguagem. Pegou. Expressões que trazem em si todo o seu significado. Comunicação total.

Ao mesmo tempo, se alguém nos oferece parceria, já nem nos entreolhamos. Já está combinado. Isso certamente vai querer dizer alguém oferecendo alguma coisa para a gente trabalhar, não ganhar nada, talvez perder, e, se der certo, um dia - talvez - dividir louros. Só louros, que o dinheiro fica com o outro parceiro.

Com meu pai, converso sobre o papagaio-de-botinas, que é o Lula. Se falo de certas pessoas com meu irmão só ele sabe exatamente a quem estou me referindo. Isso quando não usamos só as primeiras letras de um xingamento rigoroso, que fica até educado visto assim: PNSC. Não, não é nenhum partido político. Partido político seria o PNNC.

Coitado de quem escuta uma conversa dessas e sai sem entender nada. Pelo telefone se fala pouco e sempre em código. E ultimamente o sentido das coisas anda tão mudado e mutante que daqui a pouco só haverá comunicação possível com a linguagem dos guetos e recantos. E só entre eles. Na Internet há uma gama de expressões a cada dia ficando mais sofisticada, de RTs a FFs, com @s e #s; no mundo do crime, do lado do mocinho e do lado do bandido, outra. Na universidade, o acadêmico. Cada qual puxa para um lado. Estudos e estudos sobre morfologia e palavras podem ser substituídos por expressões e comportamentos. Isso acontece de forma ágil, acompanhando a cultura. Pop!

Deus criou as coisas. E quem as nomeou? Camponeses, povos da floresta, pessoas em situação de rua, em situação de risco, excluídos, incluídos, terceiro setor, sustentabilidade - tudo já foi conhecido por outro nome. Foi o marketing quem fez isso? Socialista não é mais socialista; comunistas, muito menos. Nem preciso falar sobre os liberais, democratas e outros tipos. E toca usar letrinhas, pior do que a mania que reina em repartição pública. Eles não ganham; têm DAS. Nesse meio tem muito LDO, MP, AR, IR, GLST, PQP, por aí. Em 3-D, 2-D. LCD, LED. KY (para aguentar o tranco)!

Acho que a gente faz isso a vida inteira porque desde criança, no fundo, somos incentivados a trocar os nomes de coisas com que os pais não sabem lidar, inclusive sobre os nossos próprios órgãos sexuais, nosso pipi, periquita, bumbum. Soltar pum.

Nomes são importantes. Para as mulheres, nomes de cores de esmaltes. Outro dia descobri que as empresas têm pes soas especializadas em inventá-los - cada vez mais buscam influenciar o comportamento. Ainda bem que não sabia disso quando usei o Deixa Beijar, Paixão, Ciúme, Orgulho e Fúria. Agora tem até Pink vigarista.

Já contei que dou nome a tudo. Inclusive. Tudo. Nas minhas coisas e nas dos outros. Adoro sugerir nomes de bichos, de marcas. Mas nome é nome, não é troca de sentido - ao contrário, pode representar muito mais exatamente o que estamos querendo dizer, descrever. Teve tempo que, quando a gente ouvia falar em desburocratização das empresas e auditorias, sabia que o que viria eram demissões em massa. Também conhecido como enxugamento, racionalização, downsizing. Ou passaralho.

Tudo isso para dizer que ando mesmo preocupada - e você também devia estar - com o sentido das coisas, principalmente das co isas sem sentido. Elas estão tomando muito de nosso tempo, quando a gente podia ir direto ao assunto.

São Paulo, vila, cidade, megalópole, e da aldeia global.


Marli Gonçalves é jornalista . Sempre atenta, procurando. Mas nem sempre acho. Tenho um grande e querido amigo que, neste exato momento, caminha pelo trajeto de Santiago de Compostela, na Espanha. Escolheu o lado mais árido e solitário da caminhada e creio que ele está lá procurando alguma resposta. Algum sentido. A ele dedico minha própria busca.


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