segunda-feira, 8 de março de 2010

O túnel do tempo e as bolhas de sabedoria, por Marli Gonçalves

Como nós somos bolhas! No que pensamos? Só depois de sermos esbofeteados durante a vida inteira é que conseguimos aprender e entender alguma coisa. Cai, levanta, recomeça, cai, levanta para aprender como funcionam as coisas. Vacila, cai de novo. Mas cada vez menos. À medida que o tempo passa, caímos e levantamos menos.




Poderiam ser gotas, pingos e até goteiras que se verteriam sobre nós nos dando o conhecimento, a maturidade e a serenidade para decidir que rumo, qual caminho tomar. Seria bom e evitaria tantos calos e percalços. Mas, não, tem de ser doído, na própria carne, vivido, e muitas vezes nem com esses sacrifícios, marteladas, aprendemos. Cada qual com seu destino. Ninguém pode viver a vida do outro. Pais e mães demoram mais para aprender isso, mas um dia chega.



Tem muitas coisas que, sem viver, não vemos. Amor, uma delas. E é o tempo que define a rapidez com que você consegue descobrir as boas e as roubadas que estão sempre por aí, espalhadas, tal qual alçapões. Pisou. Foi.



- Se for botar chocalho em ladrão, ninguém mais dorme aqui.



A frase, sobre o país, foi dita essa semana pelo meu pai que, aos 92 anos de vida, não tem crenças nem descrenças. Ele apenas afirma, sem dar direito ao contraditório. Ele ouvia o noticiário e acabou, na sua simplicidade de faraó caboclo do Egito, resumindo toda a nossa dificuldade não só em defender pessoas, entendê-las e às suas motivações, mas também de entender por que uns vão ver sol quadrado e outros não. Nunca.



A justiça dos homens. Foi o que me fez pensar no tempo, nas contradições e devaneios da balança virtual onde nós mesmos pesamos as nossas contradições, frustrações e moralidade. Deve chegar um momento na vida que isso acontece de forma natural. Daí essa multidão de velhinhos rabugentos ou o inverso, safadinhos. O que se tem a perder, em determinada altura? Repare no potencial desse exército, se bem acionado. No geral, nós, mais jovens, ainda temos que aguentar sapos, cobras e lagartinhos até chegar nesse patamar nirvanal. Como eles nos diziam quando éramos crianças: temos de comer muito feijão.



O que fizemos? O que deixamos de fazer? Em qual esquina da vida dobramos nossos destinos? Um amigo de 30 anos atrás me manda, da Nova Zelândia, um e-mail, brincando que estava arrependido de não ter, acredite, casado comigo! Outro, amigo de classe, me conta de sua família e dos seus filhos e daqui a pouco, netos. Reencontro aqui e ali personagens dessa história que me levou, de uma forma ou outra, a estar aqui, não lá. O que teria acontecido se fosse diferente? Não tivesse tido de enfrentar a ditadura, não teria a clareza que tenho hoje para rogar por liberdade, dar-lhe o máximo valor. Não tivesse experimentado viver e bater cabeça na parede, qual bolinha de squash, talvez hoje não tivesse a coragem de levantar a voz de forma altiva. Nem dormiria tão bem como durmo, mesmo após a consulta aos conselhos do travesseiro.



Você pensa? Dá vazão a essa extraordinária capacidade humana? No que pensa, no seu íntimo? Tem vergonha de seus próprios pensamentos? Ou evita-os, sempre que pode, substituindo-os freneticamente, massacrando os coitados com os pensamentos de outras pessoas?



Gostaria muito de ter mais tempo para pensar - essa coisa tão diletante e tão valiosa, e que quase esquecemos no automatismo cotidiano das grandes cidades. É preciso estar calmo para o pensar bem. E quem tem estado calmo ultimamente? Até para revisar a própria existência é difícil, podemos acabar sendo generosos ou rigorosos demais.



Estamos preocupados, cheios de inquietudes interiores nossas e de outros que acabam nos atingindo. Agora, para completar, no nosso íntimo, andamos apavorados com terremotos, maremotos e tsunamis, fora outras desgraças vizinhas e correlatas. E o tempo passando cada vez mais rápido, provocativo. Fala a verdade. É ou não é?



Mas, até por conta de ter resolvido fazer essas reflexões públicas, ando me esforçando e de vez em quando sou surpreendida por um pensamento louco. Constante e inquietante, só meu. Despertado por qualquer coisa, pessoa, som, que meu radar capte. Às vezes o pensamento vem com corpo, cabeça, bracinhos e perninhas; completo. Chega decidido e pronto. Sobrevive vários dias e vai embora, depois de ser incorporado. Às vezes o pensamento mal se aguenta nas pernas. Não vivi para ver. Não sei. Esse tipo precisa ser criado e alimentado com o tempo. Há ainda os terrores.



Gosto mesmo é dos apimentados, provocativos, os que me levam para frente. Há os desacorçoados que pinicam. Ficam ali - igual a uma alergia. Tem os pensamentos libélulas e efemérides, que duram pouco mais de um dia, muito parecidos com os sonhos.



Mas, no geral, vejo que o bom do pensar é mesmo poder ser como as borboletas, que trocam suas "peles", que se renovam e ressurgem - várias vidas em uma - até o ocaso.



São Paulo, onde tem muito barulho e trememos a cada um deles, pensando que chegou aquela hora de pensar melhor.




Marli Gonçalves, jornalista. Gosta de pensar em conjunto e acha que a gente devia fazer mais isso. Para, juntos, incomodarmos muita gente que tenta nos distrair.





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