terça-feira, 23 de março de 2010

Coisas simples demais, por Marli Gonçalves

É uma escala de valores que deveríamos seguir sempre, mas só rola mesmo quando sentimos os tais calores e fungados na nuca, e o negócio bem quente para o nosso lado. Aí todo mundo encontra sua fé, vira bonzinho. Isso é natural. O problema é que passa.


Estou aqui parecendo uma bichinha daquelas bem afetadas, encantada com tudo que vejo pela varanda. Vibro com a romã na árvore, com a sua inicial flor vermelha, com as tonalidades das asas dos pássaros tão negros que até ficam azuis nem sei como, ao Sol. As rolinhas brigando com bemtevis, bem-te-vis, sei lá, aos tabefes no viveiro de aves livres, lindas e soltas; há vida nas flores amarelas espocando e nas borboletas multicoloridas esbarrando nos beija-flores. Quando chove um pouco, o cheiro da relva. O sol inclemente trocado pela garoa, pelo ventinho, pelo calor, que volta a ser sol, tempo doido. Passarinhos puxando minhocas da terra, que a refeição rendeu. Cada horário um som, uma luz, uma visão lisérgica. E eu não sou Alice. Nem estou no País das Maravilhas. Estou com o horizonte limitado, vendo o que sai da toca. No quadradinho mágico só tem um tema, o julgamento. Faz tempo não ouvia tanta besteira junta, em busca de audiência jeca.

Descrevo o que vejo, acredite, do ângulo da cama de um hospital. Tudo bem que podem levar em conta que estão me dando alguns remédios, mas garanto que não são fortes assim para me tirarem a consciência e causarem qualquer efeito lisérgico, ao contrário, e ainda não cheguei aos analgésicos com opiáceos. Sinto um enj�?o natural, uma ânsia. Nem é nenhum chá de Santo Daime: o coitado, expurgo do momento, o assunto número dois, das costas largas da incompetência e procura de vilões, como se eles não fossem tão evidentes.

A descrição do pequeno jardim do Hospital Alemão, em São Paulo, foi suficiente para ver e entender - mais uma vez - como nossa própria generosidade muda de acordo com o que nos acontece, egoísta nos mundinhos particulares. Alice caiu no poço. Alice não mora aqui, mas é tanto tempo sem ver coisinhas bonitas que quando vê, se lambuza. Parece redemoinho.

Eu tinha pânico sobre como seria a cirurgia, cheguei cheia de dores de mais de 365 dias. Me apagaram. Fiquei fora do mundo algumas horas. Fui até ali, e bom foi não ter ouvido o barulho da instrumentação, do que chamo de garfo e faca. Me operaram. Com dificuldade conseguiram tirar a "maçaneta" que há 20 anos me acompanhava, e aí estava a coisa. Encontrei com a Rainha Louca e todas as suas peças do xadrez.

Conversava sobre isso outro dia. Como é comum que criminosos mudem de religião na cadeia, como se isso os absolvesse um pouco. Muitos viram pastores, levando a palavra de Deus entre celas. Outros preferem estudar e se formar em Direito, o que não deixa de ser uma forma sagrada de se garantir. Dá para entender.

Quando a gente sente o medo e vê o negócio esquentar, vislumbra a luz. Vem algum tipo de consideração, por racional que seja o humano. Vê como pode - ou não - receber solidariedade de onde menos ou mais se espera, e como podemos encontrar e conhecer novos gatos risonhos e coelhos lépidos na jornada que vai se abrindo e se encerrando em si. Feliz desaniversário! Sorte de quem sabe se abrir às demandas desse mundo. Mais uma vez agradeço ter, pelo menos até agora, essa capacidade de adaptação formidável típica dos geminianos. Nada é uma coisa só; tudo Yin e Yang, preto e branco com as nuances possíveis. Tudo gira, gira. Enquanto eles jantam mal lá em cima na roda gigante.

Aqui e agora qualquer bobagem é importante. Se fiz xixi, ou o outro; se a oxigenação alcança o negócio preso no dedo; se a pressão ferve, se o sangue é bom. Isso dá pagode, dá funk, e até samba para quem sabe compor essas pequenas alegrias que a gente procura saber na insondável cara dos enfermeiros. Ninguém os ensina a mentir, repara só. Eles franzem a testa e se entregam quando a coisa não vai bem. Gostam de carinho e respeito, uma boa piada. Um sorriso pode te valer uma injeção indolor. Preciso perguntar como se ensina o comportamento dos médicos junto aos pacientes.

Volto de novo a atenção ao quadradinho mágico e à overdose de Isabella, que soterrou o que aconteceu com o Glauco e que eu quero saber. Tem Arruda arruda, arruda Geisy, e o assobiar da desfaçatez da eleição que vem vindo, quase imposta, estelionatária, e com nosso suor.

Vou ficar fora mais um tempo, turma. Dá licença. Vou atrás da Alice e volto já. Prometo continuar boazinha.

São Paulo, pré-Páscoa, renascimento, 2010.


Marli Gonçalves é jornalista. Quer se divertir? Ouça bem as palavras que são ditas nas grandes coberturas. Já descobri que eles sentaram e levantaram, olham, choram, pedem água, e que toda sorte de maluco e desocupado tenta encontrar sua chance junto da menininha.


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