segunda-feira, 8 de junho de 2009

A Cômica Sucessão!

“Esperteza demais vira bicho!”
Adágio Popular

Waldo Luís Viana*


O brasileiro é conhecido como muito bonzinho e esperto. Nossos políticos são exatamente assim e já estão no segundo turno, pelo menos teoricamente. A “classe” política mobiliza-se, sem mais delongas, entre Dilma e Serra.

Se Dilma não tivesse câncer, os espertos já a teriam nomeado presidente, por antecipação. E, com eles, em tom monocórdio os lobistas, empreiteiros, empresários e banqueiros, formando a tradicional escola de samba da corrupção, um grêmio recreativo conhecido de todos nós.

“Garantir a boquinha” – é o lema de muitos, compartilhado agora por sindicalistas e arrivistas. Tais brasileiros não se fazem de rogados: querem continuar desfrutando do poder, com suas delícias, concordando febrilmente com outra máxima, a de que “melhor que o governo atual só o próximo...”

Só há um probleminha: agredir a realidade a todo momento costuma custar caro. Se Dilma tem câncer, Serra tem Aécio. O segundo deve estar inclusive mais preocupado que a primeira. Resultado: surge uma luta surda sobre qual o vice a ser escolhido nas chapas. E muitos estão lutando, de maneira subterrânea, para conseguir o lugar. E da maneira como se deve comportar um vice: silencioso e matreiro, pronto a entrar em qualquer conspiração!

Novamente a realidade teima em continuar existindo, apesar de isso parecer coisa de filósofo. E político que é político só se interessa por seus interesses (desculpem-me a tautologia), não deseja com frequência a desafiadora companhia das ideias. Ideias – dizem alguns deles – incomodam, porque mudam, mas interesses e vaidades só fazem acumular e crescer no mesmo lugar...

Mas a realidade predominou, nesta semana, e um candidato a vice deixou de existir, engolido pela própria gravidade e quase ninguém prestou a devida atenção.

Dentro da eterna ilusão de que o Brasil é ingovernável sem coalizão de partidos no poder, o PMDB, que só trabalha sob coabitação e esperteza, coleciona diversas candidaturas a vice. Um deles, sempre apontado em todas as listas, seria o ministro da Defesa, que tentou tirar uma casquinha midiática da tragédia com o avião da Air France.

Aproveitando-se pragmaticamente do inestimável palco, oferecido como oportunidade política repentina, apareceu-nos o professor, com varinha de aula e cara de Dr. Sabe-Tudo, a discorrer sobre o que não sabe e tentou aprender de supetão. Suas palavras, porém, foram desmentidas pelos fatos, que teimam em acontecer (oh, pobres políticos!), e sua candidatura implodiu, desmanchou-se no ar, tal qual o avião sinistrado, o objeto sólido sobre cuja queda tentava “explicar” as causas.

Falou bobagem o “bavard” e “poser”, em bom português, o falastrão e posudo professor, produzindo enorme desgaste para o país junto à mídia internacional. O desgaste chegou a ser até maior do que a própria estatura física do ministro, que não consegue se acomodar devidamente nas poltronas de nossas apertadas aeronaves.

No ambiente cômico e trágico da sucessão presidencial, o ministro preparava-se para ser lembrado como opção tecnocrática do PMDB, para vice, na chapa de Dilma Rousseff. Agora, no entanto, sob o peso e a estatura de seus argumentos e através da própria imprudência, destruiu os silenciosos sonhos no balcão sutil da alta política.

Se fosse ele, me demitiria de vergonha, mas sabemos que os políticos, até os sem cacife, só emergem ou submergem, não como os infelizmente mortos do avião destruído, mas de acordo com ambições que perdoam até as piores gafes, mesmo aquelas que prejudiquem o prestígio de uma nação inteira. Diriam os que nos assistem, inclusive, por isso, como o aforismo atribuído a De Gaulle: o Brasil não é um país sério...

Ministro da Defesa de um país sem defesa, o ex-juiz cometeu, inclusive, uma quebra e invasão de hierarquia, porque só ao seu comandante-em-chefe é permitido impunemente dizer sandices e batatadas. Assim, o ministro demonstrou que é incompetente até para dizer bobagens com a cara fechada de falso especialista. Foi um desastre completo, que poderia ser evitado, se houvesse grandeza no personagem, que positivamente teve comportamento de empáfia e falsa erudição.

Para o PMDB, contudo, foi muito bom perder a concorrência do ministro. Mais um pretenso candidato caído no limbo, sobrando bóias de salvamento para os outros, espertos e ansiosos. Eles agora estão ainda mais alegres e discretos, esperando a hora de dar o bote, como cobras no abismo...

Pobre ministro, que será lembrado como alguém que mexeu no que não devia, na calada da noite (lembram-se do episódio de um artigo da Constituição de 1988), e se equivocou totalmente, exibido e pegajoso, na angústia do dia, tentando se aproveitar política e oportunisticamente do trágico acidente com o avião da empresa francesa.

Novamente a realidade teimou em superar a esperteza, sufocando o personagem que tencionava, a qualquer preço, a ribalta. E nosso pobre Brasil, mais uma vez teve que assistir a mais um momento cômico, se não fosse trágico, da ópera-bufa da sucessão de 2010.

As nossas desarmadas e doces forças não mereciam mais essa aula de vexame e precipitação.

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* Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta e teme demais os políticos cujas ambições não são demissíveis “ad nutum”...
Teresópolis, 7 de junho de 2009.
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