sábado, 25 de abril de 2009

O lado da porta do banheiro (22/04)

por Marli Gonçalves

Dependendo do lado, do momento e da necessidade, muda a visão e o tamanho de um problema. Igual na vida. Isso faz lembrar a importância e o valor da espontaneidade, para que não percamos o rumo. Nem a felicidade.

A vida busca ser explicada pelos mais diferentes ângulos, um deles a porta do banheiro. Quem está dentro pode não querer sair. E quem está fora quer entrar. Ninguém conseguirá jamais entender a complexidade da alma humana. Parece dramática essa afirmação, mas é verdadeira. Precisamos apenas admiti-la, para continuarmos a busca pela felicidade, o alvo. O estado de espírito, que é - ou, sei lá, deve ser - a felicidade.Outro dia um amigo, motorista cuidadoso, reclamava para mim que o trânsito estava muito agressivo, que na rua todo mundo parecia estar com muita pressa, e o que é pior, de chegar só até o outro quarteirão. E parar. Como acontece em São Paulo, faróis em todas as esquinas, trânsito parado para tudo que é lado. Buzina, primeira, acelera. Sai. E para. Anda um pouquinho e pára um poucão... Não adianta ter pressa, mas muita gente nem entende isso. Descarrega as tensões e os não-tesões na buzina. E anda. E para. E anda. E para. E pira. E piora tudo.Ao mesmo tempo lembrei-me que, no dia anterior, ao contrário, eu estava trabalhando e com muita coisa para fazer, em vários locais. E todo mundo na minha frente parecia ter combinado: estavam de férias, passeando, fazendo turismo, olhando vitrines de dentro dos carros. Bem devagarzinho. Que ódio. Que inveja!Aí veio a história da porta do banheiro: um minuto não é nada para quem está dentro, e é um tempo interminável para quem está fora. Achei simplesmente genial como conceito. Genial. Simples, assim.Eu já tinha gasto outros tantos minutos a pensar sobre o crédulo e o ingênuo. Nem todo crédulo é ingênuo e todo ingênuo é totalmente crédulo - a conclusão. Cara ou coroa. Pif ou paf. Viver ou morrer. Branco ou preto. Sim ou Não. Na vida tudo é muito dialético, não tem talvez. Para ver o mundo você tem de estar sempre de um lado da porta. A atriz pornô Marilyn Chambers, encontrada morta misteriosamente, famosa por sua interpretação realista em Atrás da porta verde, que o diga. A vida dela foi sempre do lado de lá, com alguém espiando pelo buraco. Algum buraco.Matutando um pouco mais, me ocorreu a importância da espontaneidade, a verdade mais límpida e absoluta do ser humano. Cada vez mais rara.Sempre sofri muito com meus próprios repentes de espontaneidade. Já beijei e abracei rabinos ortodoxos, já falei palavrão diante de bispo. Foras de todos os naipes. Já abracei forte e deixei marca de batom em rostos que você não acreditaria se eu te contasse, apenas pela espontânea alegria de conhecê-las ou encontrá-las. E, pior, máximo dos máximos. Sempre tento limpar com a mão a marca nos rostos, que acabam perplexos com tanta intimidade. Quando eu me toco, já era! Já fiz. Sangue quente. Meio destravada e impulsiva. Esta sou eu. Muito prazer.As pessoas andam muito tensas, não se tocam mais, ou se tocam muito pouco. Acabo sem querer assustando. Se forem daquelas que querem parecer o que não são, só pose, então, piora! Ficam parecendo que engoliram uma bengala inteira, empertigadas. Duras que nem um pau. No outro sentido.É horrível. Quando eu me dou conta, já as atropelei. Chego a ficar sem graça, mas... Que fazer? Porque podem dizer o que quiserem, mas a minha espontaneidade ainda é a minha melhor defesa.Transfira tudo isso agora para a vida mais do que real. Antes de atirar a primeira pedra! Que tal passar a avaliar o mundo pelo menos pela fresta da porta do banheiro? Se assim fosse, as buzinas só seriam tocadas em caso de necessidade. E funcionaria. As sirenes das ambulâncias (você já precisou estar em uma?) e da polícia só seriam ligadas em caso de necessidade. As palavras URGENTE e POR FAVOR seriam recuperadas e restauradas, igual ao São Jorge.A análise política também pode ser feita sob esse ângulo. Ir-e-vir-dar-viajar-com-passagens é um detalhe. Perfumaria. Importante, mas detalhe. A questão central é mais embaixo. Não se distraiam. Perdoem rápido os que foram espontâneos, porque precisaremos deles para pôr ordem neste imenso galinheiro, que está alvoroçado e isso não é bom. Sem hipocrisia, porque senão não sobra um, mermão!Assim é. Chorar leite derramado só te faz perder tempo em limpar o fogão antes de o leite secar, tornando a tarefa da limpeza mais difícil a cada segundo. Mãos à obra! Voltemos a valorizar a espontaneidade, que é gostoso. Os milhões e milhões de internautas que acessaram e choraram ao ouvir a feia Susan Boyle cantar talvez não tenham percebido a essência da coisa, a espontaneidade. Senão estaremos todos sendo enganados, feitos de bobos?É muito mais difícil que alguém consiga enganar a muitos quando a espontaneidade está presente. O coração é quem decide, mas ele processa o que recebe dos olhos, do cérebro, da pele. Viramos todos um só coração quando juntos buscamos enxergar quem está com a verdade, quem é natural. Quem ainda vale a pena.Quem se engana, pode ser enganado pela credulidade. Não porque seja ingênuo. Pode ainda estar do outro lado da porta. Do banheiro. Ou da festa. Dor de barriga todo mundo tem. São Paulo, feriados mil no Brasil. • Marli Gonçalves, jornalista. Quanto mais feliz, acaba sendo mais espontânea, o que parece bom. Mas preciso que o mundo entenda isso, para ser mais bem compreendida, e não passar tanto aperto. Dedico esse texto a dois amigos, que sabem disso. Um já se acostumou comigo. O outro, mais recente, pelo menos não se assustou.
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