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quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Neil e "O Leão morreu, viva a Leoa"

O Leão morreu, viva a Leoa.
Neil Ferreira.

O Leão do imposto de renda, a pessoa não o personagem, foi abatido
pelo cara que pensa que é o dono do circo, mas não é, não passa
de um "amarra-cachorro", aqueles lúmpens que pelo ingresso no pior
lugar para ver o espetáculo fazem qualquer trabalho sujo, dentro ou fora
do pícadeiro.
A pessoa do Leão que acabou de entregar a juba foi o rachid, burocrata exemplar envolvido em recordes de arrecadação, vítima, dizem, do mantega, obscuro zero a esquerda se comparado com seu antecessor,
"meu ermão paloffi". Menor e não só na altura, é menor por qualquer
régua que se meça, até a do Mal; mantega é um zé ninguém perto do paloffi.
A notícia frequentou espaços nobres em todos os jornais, dando a queda
de rachid como a higienização final que mantega fez na equipe que sobrou do paloffi.
Último remanescente do paloffi não é, rachid é remanescente do time do Malan, mas para bem dizer e que fique muito claro, o último ultimíssimo remanescente desses dois, Malan e paloffi, está por cima da carne seca
e bem poderoso, o Meirelles, do BC, cuja independência e acesso direto
a São lulla dão úlceras e insônia a mantega.
Mas rachid não é lá toda essa unanimidade, a revista Veja atirou páginas embaraçosas sobre ele e a administração da mega grana que nos arranca
do couro para somar os bilhões que arrecada.
Leão morto, Leão posto, o personagem sobrevive. Então, corretamente, Leão morto, Leoa posta. Ou, o Leão morreu, viva a Leoa.
Eu já sabia desde os tempos imemoriais que isso aconteceria, isto é, que uma Leoa sentar-se-ia ao trono.
Posso provar, se encontrar a prova perdida nas brumas do tempo. Tentarei.
Eu trabalhava na agência de publicidade DPZ e criei o personagem do Leão do Imposto de Renda no fim de 1979, o Secretário da Receita Federal
e o Ministro da Fazenda, que o aprovaram, eram Chico Dorneles, hoje congressista por Minas Gerais, e Delfim Neto, hoje meu vizinho de Coluna Opinião aqui no DC.
A campanha começou a ser veiculada nos primeiros meses de 1980, o mês fatídico para a entrega das declarações era abril. Do dia para noite o Leão, como personagem, ganhou corações, mentes, aplausos e vaias, manchetes na mídia, quadros de humor e humor negro nas tevês e nas rádios.
A campanha como publicidade paga durou talvez até 1990, não mais
de 10 anos, está fora do ar há mais de 18 anos e ainda vive nas manchetes
da semana que passou.
O Leão como persongem do Imposto de Renda chegou ao Aurélio
e ao Houaiss, os dicionários mais importantes, é o único personagem da publicidade brasileira que conquistou tamanha importância e notoriedade.
Mas isso todo mundo sabe. O que ninguém sabe, desculpe, ninguém não, pouquíssimas pessoas sabem, narro agora, em off, você fica sabendo, mas prometa levar para o túmulo.
Criada a idéia do personagem do Leão, como apresentá-la aos burocratas do governo, que não tinham obrigação nenhuma de ter o treino necessário para compreender essas chispas publicitárias, que flertam com o absurdo ?
A DPZ, cujos sócios sempre correram todo o tipo de riscos para tornar
uma boa campanha publicitária possivel, resolveu fazer o primeiro filme
e apresentá-lo pronto, antes da aprovação da idéia e dos orçamentos. Recusado, seria um desastre, um monte de grana jogada fora.
Conversei com o Andres (Andy) Bukowinsky sobre o assunto e seus
olhos incendiaram-se. Andy e Julinho Xavier são os dois maiores
diretores de comerciais em atividade no Brasil, se duvidar pergunte
ao Fernando Meirelles, da O2, ele também um gênio dos comerciais
e diretor de nada menos do que "Cidade de Deus", indicada para
4 "Oscars", e do "Jardineiro Fiel", em que a mocinha, Rachel Weiz,
levou o "Oscar" de Melhor Atriz.
Andy, como faz em todos os seus trabalhos, discutiu comigo tudo o que era possivel discutir sobre a idéia, da cena zero à colocação da assinatura final, o famoso (na publicidade) "logotipo do cliente".
Em 5 dias o comercial estava pronto, em 6 eu e meus colegas da DPZ estavamos em Brasilia apresentando a idéia, que amavamos mais
a cada vez que viamos comercial e vimos literalmente centenas de vezes.
Impeecável, sem erros, quase um milagre no cinema.
Havia na DPZ a lei não escrita que o grupo de criação responsável pela
idéia fizesse todas as apresentações necessárias e desse todas
as explicações exigidas pelos clientes, quantas vezes eles as pedissem.
Uma apresentação era uma maratona e depois dela você chegava em casa quebrado. Mas quando a idéia tinha chispa, você aceitaria apresentá-la ao Demônio em pessoa e assando no inferno, se necessário.
Deitamos e rolamos com o comercial do Leão na Receita Federal por um dia inteiro (o comercial tinha 60 segundos, imagine quantas vezes foi visto) sem intervalo para almoço, aguinha gelada, cafézinho, nada, jurei que na próxima levaria marmita.
Aprovada a idéia, não via a hora de voltar voando para São Paulo e dar a partida para a produção do pacote de comerciais (Andy fez todos, durante os 10 anos que durou a campanha, como faz todos os Bom Bril, do Carlos Moreno, enquanto o carequinha estiver vivo).
Aí... adivinha... um assessor do Dorneles chamou-me num canto e disse no meu ouvido: "Vocês fizeram esse leão sem juba para puxar o saco do Chico Dorneles, que é careca desde criancinha, ou esse leão aí é uma leoa ?"
O cara viu o que nós não vimos no nosso comercial impecável, perfeito, quase um milagre no cinema, o Leão era a Leoa. O que fizemos, oras, voamos para São Paulo, achamos um Leão com a juba maravilhosa, que estrelou dezenas de comerciais.
O comercial da Leoa, eu disse "Vamos guardá-lo, um dia uma Leoa assume essa cadeira". Não deu outra. Demorou 28 anos, mas não deu outra.
Em algum lugar esse comercial há de estar, aposto no arquivo do Andy, que além de talentoso é organizado, mas aposto só um tantinho, não brinco com dinheiro.

Um comentário:

Lígia Bittencourt disse...

Querido amigo Neil,

A história do surgimento do Leão é fantástica e quem sabe, agora, a Leoa virará o personagem, pois nem esquentou a cadeira...já está rugindo querendo mais aliquotas para o IR...heheeh!
Parabéns mais uma vez!

beijinhos,

Lígia