sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Meu artigo de 4/1, publicado na Página “Opinião” do Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo www.dcomercio.com.br “home” do Museu da Corrupção, que exibe retalhos emblemáticos do cotidiano deste nosso país “dos mais de 80%”. A capa de hoje é uma aula de jornalismo, cultura, direção de arte e ousadia, vale a pena visitar o “site” para ver a edição digital. O meu artigo, antecipo, tenta explicar a minha perplexidade diante dos acontecimentos. A História é escrita sob o meu nariz e não a percebo. Agradeço se repassar para seus amigos da Internet. No anexo, a interessante manchete de capa desta 5ª. feira do jornal “Mais Esporte”, que não conhecia e estava à venda numa banca da Avenida São Camilo, Granja Viana. O jornal custou 0,50, a manchete não tem preco. (NF)

Mubarak para o Cara: “eu sou você amanhã”

Neil Haddad Ferreira

Cara, tô mais perdido do que cego em tiroteio no meio desses ventos de revolução que incendeiam a mídia, soprando dos desertos árabes, ricos de areias escaldantes, história milenar, petróleo jorrando quase à flor da terra, águas escondidas em profundidades abissais, Allah, Maomé, Islã, Irmandade Muçulmana, ditaduras laicas e religiosas, com valores que não compreendemos.

Não compreendemos virgula; eu não compreendo, nem que você passe o resto da vida explicando tim-tim por tim-tim, tá fora do meu alcance. Pode esplanar como se eu tivesse 8 anos de idade; pode desenhar, não adianta, não vou entender.

Vi fotos de multidões de pessoas usando turbantes ou não, de braços levantados e punhos cerrados, cenhos franzidos e bocas num rictus que davam a entender que berravam palavras de ordem ininteligíveis para mim. Estavam contra algo, não sei o quê.

Era a voz rouca das ruas qual o vento simum varrendo o norte da África, engolfando Tunísia, Egito e lambendo a Jordânia. Do Líbano, diz-se que é uma democracia, sabe-se lá se é mesmo, estando no poder quem está; da Síria nada se sabe, como parece que nunca se soube.

Sou limítrofe geográfico e talvez mental. Meu avô veio da Síria, imigrante chegou mascate e depois virou comerciante. Como dizem, pobre era “turco”, remediado virou “libanês”.

Trouxe um belíssimo nome, Scandara Haddad, que traduziu quase literalmente para Alexandre Ferreira quando se naturalizou brasileiro, daí o Ferreira do meu sobrenome. Há uma pá de Ferreiras por aí que são Haddad de origem. Esbero não ser brimo do Haddad da Educação.

Na Tunísia, o vendaval derrubou um soba há 23 anos no poder, no Egito ameaça jogar ao chão outro há 30, na Jordânia o emir, que não é bobo nem nada, fez o primeiro ministro montar no camelo e dar no pé, arranjou um bode respiratório bem rapidamente.

Milhares de palavras impressas acompanhavam as fotos, confesso que não as li todas, duvido que você as tenha lido; as que li me pareceram imprecisas, tentarei ser preciso ao explicar porque me sinto tão confuso.

Mubarak, o do Egito, que sucedeu Anwar al Sadat, assassinado no poder, que sucedeu o coronel Gamal Abdel Nasser, alegadamente assassinado no poder, segundo alguns jornais da época envenenado por seu sucessor Anwar al Sadat, foi “eleito” em 1981 e foi fondo, foi fondo, foi fondo, está lá até agora, quando as ruas resolveram dar-lhe bilhete azul.

Ele chamou o Exército, que se recusou a ir, o comandante afirmou em nota oficial que “o povo tem o direito de se manifestar pacíficamente”. Lembro-me de um slogan de estudantes americanos contra a guerra do Vietnã: “E se “eles” convocarem para uma guerra e ninguém aparecer?”

Aí, as manifestações de milhares de pessoas na cidade do Cairo deixaram de ser pacíficas. Apareceram supostos defensores de Mubarak, os conflitos explodiram, fala-se em mais de 1.500 feridos. Seria um bom pretexto para o Exército intervir. Intervirá ? Como saber ?

Li pessoas que admiro e invejo por sua cultura, capacidade de observar, de expor o pensamento com clareza e sobretudo de se indignar.

Jabor, no Estadão, vibra de entusiasmo e emoção como se o levante do norte da África tivesse explodido para implodir Mubarak, da mesma maneira mágica com que pessoas de todas as idades reuniram-se para implodir o Muro de Berlim.

Reinaldo Azevedo, no seu blog, é cético e não acredita em movimentos populares expontâneos, algo por trás sempre há, aquela oposição que vivia fora e oportunisticamente voltou para casa talvez queira fatiar o movimento (há PMDBs por lá, desconfio).

Magnoli acha que no fundo todos somos iguais, temos os mesmos ideais, queremos as mesmas coisas (lembro o slogan dos comunistas espanhóis “Pão, Terra e Liberdade”, que heroicamente largaram os revolucionários antifranquistas chupando o dedo).

Meu desconfiômetro não encontrou em nenhum deles nenhuma análise clara sobre o “day after”, vai qui nóis ganha a guerra e daí ?

Moisés Rabinovici, diretor deste DC e meu especialista de confiança em assuntos do Oriente Médio, percebeu no ar um aroma de jasmim, na “Revolução do Jasmim” que pode inebriar o norte da África. (Pode, mas para mim velórios também rescendem a jasmins).

Será possivel ao Egito algum regime que dispense uma união com a Irmandade Muçulmana ? Será isso melhor ou pior do que Mubarak ?

Mubarak mantém relações estáveis com os Estados Unidos e com Israel. Durante as manifestações não foram queimadas bandeiras de Israel e nem dos Estados Unidos.

Convém estar consciente de que os Estados Unidos apoiarão qualquer regime, ditadura ou não, que não fortalecer o seu inimigo. O inimigo hoje parece ser a Al Qaeda, mas quem tem certeza ? Eu, não.

Se eu analisar algo que não entendo com ferramentas que entendo, a análise será errada.

Há enorme esperança do lado de cá do mundo de que o que há lá é uma busca por uma democracia nos termos ocidentais. Eles não são ocidentais, vai ver querem outra coisa que não sabemos o que é.

Mas tudo tem um lado bom, e esse lado é a vox populi vox Dei “Não há mal que não acabe”.

O Cara planeja aqui um Reich de 40 anos mas Mubarak, do alto dos seus 30, manda-lhe o recado: “Eu sou você amanhã”.

“GIVE PEACE A CHANCE” (LENNON).


Neil Ferreira
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