domingo, 20 de fevereiro de 2011

Conga la Conga, Bunga-Bunga, yê-yê-yê. Por Marli Gonçalves

Um passinho pra frente, dois passinhos pra trás. Avança no tempo. Nas descobertas. E retrocede na sabedoria e mínima noção. Assim caminha a humanidade. Ou melhor, assim dança a humanidade, conforme a música. A gente consegue até ouvi-la em determinadas ocasiões.


"...Besame, besame mucho...Como si fuera esta noche la ultima vez"... O belo bolero que uniu em romance fugaz uma ministra da Economia e um ministro da Justiça chegou até nós na forma de planos mirabolantes e expropriantes do rancor de um amor perdido. O presidente bossa-nova JK nos lembrava e estimulava que criassem uma música doce, suave, cantada baixinho. Os hinos ufanistas nos torturaram por mais de duas décadas, interrompidos por rompantes do yê-yê-yê e protestos tropicalistas. Sim, nossa história é música, sim. E dança. Nossos quadris estão sempre rebolando, um bambolê danado.

Mas, convenhamos, há muito não aparecia algo tão ritmado e expressivo do que o nome da dancinha predileta do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi - a Bunga-Bunga. Detonou a nossa ingênua Conga la Conga, de Gretchen. Detonou a dancinha da descida na garrafa de Carla Perez e seus 105 cm de potência. Não sobrou nada nem para a coitada da eguinha pocotó. Rebolation!

Bunga-Bunga pode ser uma dança africana do começo do século. Ou será caribenha? Pode ser uma flor, uma ilha. Daqui para frente será o nome de muitas coisas, como de bares, boates, bronzeador, até uma cerveja cairia bem. Cerveja Bunga-Bunga, desce dançando. Excitante.

Mas hoje, na verdade, Bunga-Bunga é só a dancinha que enrascou Berlusconi. Segundo uma das bunga-bunguetes, Ruby, ele pedia que as meninas (variadas, várias idades e nacionalidades) fizessem tudo para ele, nuas, brincando entre si, e bem perto, como lhe teria sido ensinado pelo ditador líbio Muammar Gadaffi (é, essa bola da vez que está na berlinda agora, e se defende mandando matar e censurar). Acreditem. O italiano velhinho safo que vai se fritar na mão de três juízas ainda precisou aprender! Será que quando veio ao Brasil dançaram Bunga-Bunga para ele? Temos aqui formatos nacionalizados, variações bungais.

Brincadeiras e fantasias à parte, que o Carnaval vem aí, além de me divertir com o ritmo Bora-Bora da Bunga-Bunga, pensei como músicas e danças são marcantes em períodos e gerações. Como também podem ser marcantes na visão do relacionamento entre o homem e a mulher. Lembrei-me da valsa dos salões antigos. As mulheres de longos com anquinhas, o silicone da época; os homens, elegantes, com um braço para trás, em volteios, gentilezas, mesuras e salamaleques para as damas. É o mestre-sala e a porta-bandeira na avenida, o homem fazendo deferências, conduzindo a mulher, com respeito e paparicos. Lembrei-me também da exposição - até pudica - das pernas no cancan. E revi os sonhos de liberdade expressos nos v�?os de Isadora Duncan.

As mulheres vêm atravessando todas essas fases, em busca de seu lugar no palco, no tablado e no chão da fábrica. Cantaram e dançaram "as dores e as angústias de ser uma mulher", de Atenas, ou Geni. Ou as que ganharam seus nomes eternizados em poemas de Tom, só pela graça que emanavam. A ovelha negra da Rita, e o auê de seu lança-perfume. Ao lado de tigresas, frenéticas, camaleoas olhando com seus peitos direitos, Marinas morenas. E Amélias. Os sertanejos voltaram com o amor em rimas fáceis para todos cantarem. E o axé, para levantar do chão, beijo na boca, seja lá quantos e de quem for.

Conseguimos. Estamos aí, inclusive cantando lindamente, com muitas cantoras que amam outras mulheres, mais livremente. Gretchen já casou um sei-lá-quantas, vezes, e ainda faz o chica bum, girar na Conga la Conga. Elza Soares dá entrevistas sobre sexo com o marido jovem como receita de vitalidade.

Presidentes mulheres mandam aqui e em outras plagas. Há juízas, ministras, governadoras, prefeitas, senadoras, deputadas. Acaba de chegar uma maestrina para reger a maior orquestra. E no Rio a mulher com nome de miss põe a polícia na máquina de lavar e torcer corruptos. As mulheres estão chegando. Abram alas!
Mas, com tanta música que ainda há para inventar, cantar e dançar é terrível ainda precisarmos ouvir falar em algumas de nós tendo de viver de fazer Bunga-Bunga para ricos babões, político bundão, em troca dos trocados. Ou estrelato.
Ou apenas pela submissão e pelo medo.

Pata-pata. Conga-conga-conga!

São Paulo, aberta a temporada de levar muitos rebolados na cara, 2011


(*) Marli Gonçalves é jornalista. Há muitos e muitos anos uma senhora se aproximou de mim, pedindo um autógrafo. Como assim? Eu não era a Gretchen? Que absurdo você tão famosa mentir para não dar um simples autógrafo!- a mulher gritava. E realmente brigou comigo. Fiquei apavorada. Outras vezes também me confundiram. Eu tinha cabelão, os olhos fundos, grandes, e o nariz, digamos, expressivo, que aumentavam a confusão. Mas sempre fui mais rock n`roll. Melhor assim. Muito melhor.
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