domingo, 15 de novembro de 2009

Alguma coisa está fora da Ordem, por Marli Gonçalves


Ainda no escurinho do apagão, tive a intuição imediata que a partir dali ouviríamos mais uma enxurrada de frases de efeito sem sentido e tentativas de explicar o inexplicável que sentimos em nossas peles e não é só de energia elétrica que falamos. Um curto-circuito criminoso da liberdade - das ideias, da imprensa, dos costumes, da vergonha na cara - vem sendo preparado no apagar das luzes desse governo desencapado.


Formadores de opinião importantes tratados como borra de café. A linguagem pobre das ruas incentivada. Quantas vezes só hoje você ouviu a expressão “Com certeza”, em resposta a qualquer de suas dúvidas? Pior se disseram “Então...” (em geral, há uma paradinha dramática). Já sabe que em seguida lá vem um monte de mentiras ou chutes. Com certeza, os caras estão bolados, na balada, bombando e não dizendo coisa com coisa. Então, galera... faz sentido!

O sagrado direito de opinião vem sendo apedrejado em praça pública. Os papagaios de botina de plantão são rápidos e fecham um cerco pesado violento na tentativa de intimidar quem tenta não exatamente iluminar, mas pelo menos arejar, ventilar um pouco as ideias da rapaziada. Por pouco não lincham o mano Caetano. Vou pedir para meu caboclo pai de 91 anos parar um pouco de resmungar contra o Lula, Dilmona, esses panacas todos. Está fazendo mal para a saúde dele assistir tevê. Já pensou se meu velho ainda lesse jornais e sites, soubesse os argumentos do além usados pelos alinhados-com-eles?

Gosto do inusitado. De quem bota para quebrar. Nessa linha, me alinho com Caetano, com a nudez tatuada e doida da Fernanda Young na Playboy, com as peraltices de alguns, escritas em poucas letras no Twitter. Quase uma garota pobre foi para a Inquisição porque botou suas coquetes coxas de fora onde só se vêem bofes, barbies e ignorância. Ganhou mais de 15 minutos de fama, virou nossa Susan Boyle brasileira. Talvez ajude a sua família pobre, mais do que o curso de Turismo. Pelo menos. E, rápido! Já viu que apagões e viadutos tomam rapidamente o lugar das suas coxas.

Eles fazem cara de sérios, mas - quer saber? - não aguento mais tantos engraçadinhos, sejam engraçadinhos atores, do CQC, Pânico, ou do Gugu, Pegadinha do Faustão. Piada é piada. Tudo está sendo levado na piada, mas ninguém aparece para explicar que piada não se explica. Uma fórmula que cansa. Uma charge, uma foto, ambos, podem sim mudar o mundo; mas piadas rasteiras apenas tornam o mal mais palatável, digerível, engraçadinho. Tudo tem hora. Tudo tem lugar. Fora de lugar, só a peruca da mulher nervosa que está acreditando que pode, minha filha, meu filho.

No governo desencapado, que diz que não sabe, não sei, não saberá te mandam esquecer. Te mandam esquecer, superar. Enquanto isso um rolo compressor anda forte nos bastidores da imprensa, nas contas públicas, nos patrocínios, nas xeretices. Para ouvirmos com ouvidos de penico velho, uma frase como essa, literal, do presidente Lula:

- “Então, essa questão do clima é delicada por quê? Porque o mundo é redondo. Se o mundo fosse quadrado ou retangular, e a gente soubesse que o nosso território está a 14 mil quilômetros de distância dos centros mais poluidores, ótimo, vai ficar só lá. Mas, como o mundo gira, e a gente também passa lá embaixo onde está mais poluído, a responsabilidade é de todos”.

Sem comentários. Realmente não é coisa de analfabeto falar. Caetano usou expressão errada. O que será que o Lula está tomando? Será efeito das viagens ao exterior? Está subindo para a cabeça?

Mas a semana não acabou só assim. Agora, escutem só a nova tese: o mensalão não existiu. Aquilo tudo foi um golpe urdido contra o PT, contra o nosso senhor. Marcos Valério foi infiltrado careca no partido, numa tentativa de derrubar o governo. Ele disse isso. Ele teve a coragem de dizer isso! Para tanto há o rolo compressor. Para que eles digam o que quiserem, com ares de doutores do nada.

Cada vez mais precisaremos nos refugiar e nos esquivar desses petardos modernos, tão letais quanto balas perdidas do Batman e Robin lá do Rio de Janeiro ou os raios que, segundo eles, partem as linhas de transmissão, e as nossas caras.

Alguma coisa está realmente fora da ordem. Para começar, no clima. Acho que já estamos vivendo os tempos difíceis e, como humanos que somos, nossos organismos terão pouco tempo para se acostumar com calores flamejantes, frios congelantes, águas imprevistas caindo no mundo totalmente previsível da falta de infraestrutura.

Precisaremos fazer mudanças significativas na nossa história. Houve algumas, coitadas, esquecidas, relegadas, ou não-finalizadas. Tentaram o rodízio e o escalonamento de horários e ampliaram a venda de carros, carros, carros, motos. Falam em redução da jornada de trabalho como se já não tivéssemos há muito perdido essa conta! Sempre penso até quando os teatros continuarão encenando espetáculos às nove da noite dos dias infindáveis e paralisados das grandes cidades. Novela das oito passa de 9 horas. E quem consegue chegar antes, liga na das 7, mais legal porque dá para dar alguma risada, ver um pouco do politicamente incorreto. Economizamos um pouquito de energia com o horário de verão, para que eles gastem com o verão deles o que não conseguimos poupar no inverno, cigarras sem cigarros, carneiros insones.

Ficar perplexo apenas paralisa. Perturbar-se muito, adoece. Continuar lúcido, bobagem! Buzinar, gritar, xingar, estressa. Realmente, viver está virando aventura.

Alguma coisa está fora da Ordem. E o Progresso não é real.


São Paulo, sem isolamento acústico, sem ar, nem condicionado, sem água, sem luz, e usando o lenço só para fazer mágica e enxugar suor. Ou para se enfeitar.


Marli Gonçalves, jornalista. Madonna para lá e para cá, enquanto a mandona quer. Eu, que não sou neguinha, fico bege com a tal moda nude, raios que o partam!

PS: Eu não lembrava mais de como é interessante a letra dessa música de Caetano, “Fora de Ordem”:
Vapor barato/Um mero serviçal/ Do narcotráfico Foi encontrado na ruína/ De uma escola em construção...
Aqui tudo parece/ Que era ainda construção/ E já é ruína / Tudo é menino, menina
No olho da rua /O asfalto, a ponte, o viaduto/ Ganindo prá lua/ Nada continua...
E o cano da pistola/ Que as crianças mordem / Reflete todas as cores/ Da paisagem da cidade/ Que é muito mais bonita
E muito mais intensa / Do que no cartão postal...
Alguma coisa / Está fora da ordem/ Fora da nova ordem/ Mundial...(4x)
Escuras coxas duras/ Tuas duas de acrobata mulata Tua batata da perna moderna A trupe intrépida em que fluis...
Te encontro em Sampa / De onde mal se vê/ Quem sobe ou desce a rampa
Alguma coisa em nossa transa/ É quase luz forte demais / Parece pôr tudo à prova
Parece fogo, parece/ Parece paz, parece paz...
Pletora de alegria/ Um show de Jorge Benjor / Dentro de nós/
É muito, é grande/ É total...
Alguma coisa / Está fora da ordem / Fora da nova ordem/ Mundial...(4x)
Meu canto esconde-se / Como um bando de Ianomâmis / Na floresta
Na minha testa caem/ Vem colocar-se plumas/ De um velho cocar...
Estou de pé em cima/ Do monte de imundo / Lixo baiano
Cuspo chicletes do ódio/ No esgoto exposto do Leblon
Mas retribuo a piscadela / Do garoto de frete/ Do Trianon
Eu sei o que é bom...
Eu não espero pelo dia/ Em que todos/ Os homens concordem
Apenas sei de diversas / Harmonias bonitas
Possíveis sem juízo final... / Alguma coisa
Está fora da ordem / Fora da nova ordem/ Mundial...
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