terça-feira, 15 de setembro de 2009

OS COLECIONADORES, POR MARLI GONÇALVES

Você ainda vai ter uma coleção qualquer, se é que já não tem várias e não tinha ainda nem percebido, seja homem, mulher, criança, velho, ou todos eles juntos. É da nossa natureza essa mania de contar e juntar coisas, inclusive vantagens. Gente grande também brinca. Aí reside o perigo.

Pode ser fetiche, mania, obsessão, distração. Falta do que fazer, ou excesso. Trauma de infância ou infância que não acaba nunca. Hobby, ou ainda uma herança física ou psicológica deixada por algum antepassado. Algumas coleções podem ser o retrato mais fiel de nossas manias e loucuras. Tem aquelas que a gente mostra, orgulhosos. Como as de canetas, gravatas e chapéus que se desfilam por aí, em ocasiões especiais. E tem as coleções que escondemos, às vezes até de nós mesmos, ou para não as jogarmos fora de uma vez (ou até por vergonha). Como a coleção de dívidas, papagaios e contas a pagar, promessas e ilusões de amor nas quais se acreditou. Coleções de promessas ouvidas são sempre muito promissoras, principalmente em tempos eleitorais. Crescem, crescem, e até transbordam. Juntou mais de duas coisas, cacarecos, de um mesmo tipo, gênero, categoria, cara de mania, fixação ou obsessão, faça atenção! E dependendo de qual, do espaço que ocupa na vida, vira TOC, transtorno obsessivo-compulsivo. Conheço quem tem o grande prazer de colecionar desafetos, mais do que amigos. E gosta muito disso constando em letras garrafais no seu perfil – aparecem às outras pessoas como temidas e temíveis, e das quais se deve guardar distância segura. Como essa, há muitas coleções assim, impalpáveis: amores, amantes, aventuras, cenas e pessoas bizarras. Sua qualidade é a que não necessita de muitos espaços, a não ser o de sua própria memória real. No máximo, algumas imagens gravadas nas memórias virtuais de arquivos perdidos no tempo. Poucos sabem explicar o que - em qual ponto - começa uma coleção, qual é o ponto zero. Nunca se sabe também até onde vai durar, o que alcançará, quanto tempo sobreviverá até que, em geral, seja trocada por outra. Algumas conseguem persistir durante toda a vida. Há as que duram apenas algumas horas, o tempo de um romance, um dia de Sol, uma viagem, conchinhas do mar e pedrinhas inclusas. Outras se sobrepõem. Caixinhas de fósforo do mundo inteiro viram fogo em minutos na hora da necessidade. O papel de uma linda Bíblia antiga pode enrolar - durante anos e quase sem ser percebido, tal como as traças - muita alegria e fumaça de adolescentes destituídos de noção. Aliás, quando somos adolescentes colecionamos coisas engraçadas. Lembro-me de ter guardado umas bitucas de cigarro, nomes escritos em guardanapos, nada muito fora do convencional. Mas tem os que estão guardando chicletes mastigados. Ou, talvez se arrependam, mas há casos ainda dos que resolveram colecionar tatuagens vivas em seus próprios corpos. Na minha época, conheci de tudo, até quem colecionasse aranhas, morcegos, ratos, baratas, fugas da polícia. Cobras e lagartos. Coisa hardcore, como eram aqueles anos de chumbo. Coleções podem ser incríveis, e tornarem-se tão importantes que as pessoas simplesmente enlouquecem, gastam tudo o que possuem com elas; ou para mantê-las, ou para guardá-las. Os cuecas, por exemplo, gastam e gostam muito, em geral, de colecionar carros e mulheres. Os carros de brinquedo, as mulheres de verdade; ou mulheres de brinquedo, pagas para andar em carros de verdade. Quando a gente anda de ronda nestes mercados de pulgas, quinquilharias e antiguidades é que percebe. Porque haveria à venda tantas miniaturas de bichos, os mais variados? Gatinhos, cachorrinhos, galos, pinguins, coelhos, sapos, elefantes, girafas, ursos, cavalos. Um para cada personalidade controversa existente neste mundo, incluindo dinossauros. Na linha "coleção animal” já pensei em fazer uma coleção de veadinhos, uma fixação que tenho no Bambi, pode ser, mas para ficar mais barato resolvi deixá-la apenas na minha memória. Engraçado, se você for lá comprar é uma fortuna. Se for lá vender, eles olham até com nojo na avaliação. Nunca vale a pena. Hão de existir nesse mundo coleções maravilhosas a serem ainda descobertas. E que devem ser mais interessantes do que as de tipos mais comuns: de ingressos de cinema, teatro e congêneres (linha cultural), experimentos em formol e baguetas (linha cientista maluco), bolachas de chope, mexe-drinks diferentes, copos e taças, cinzeiros (linha bebum de bar). Tem coleção de autógrafos, de bonecas, de latas e garrafas, palhetas e baquetas (linha fã de carteirinha). Selos, moedas, dinheiros mundiais (linha banqueiro). Dá para fazer coleção de tudo e mais um pouco. Procurando a idéia, achei a citação de coleções incríveis como a de fotos de bueiros de rua. Tem um gaiato que coleciona imagens de gatos com cara de Hitler, acredita? Nessas, acabei percebendo que tenho ainda mais coleções do pensava e não considerava como tais, de calcinhas, sapatos, botas – alguns itens de permanente exposição fora dos pés, coisas assim. Nem posso contar todas. Há de citar as coleções profissionais, de fotógrafos e suas imagens, de jornalistas e seus textos, dos escritores colecionando palavras, temas e sentidos. Pintores e seus repentes, que vingam ou não. Conheço uma coleção linda, de uma amiga fotógrafa – "As terras por onde andei” – potinhos de vidro cheios de solos, terras, areias, de matizes e formações diferentes, com seus brilhos e tons. Nessa hora é bom ser rico, muito rico. Para não usar o dinheiro dos outros. Para comprar e colecionar aviões, jatos, cargueiros, submarinos, da França, Estados Unidos ou da Suécia, etc., que é bom e gostoso de brincar. Mas não como esses meninos latinos malcriados estão fazendo, como se fosse um joguinho qualquer. Como se eles fossem ainda os garotos que guardavam botões, trocavam pipas e figurinhas. E faziam troca-troca.
São Paulo, dias desarmados e primaveris, 2009.

(*) Marli Gonçalves, jornalista. Coleciona anjos, sereias e cavalos livres de qualquer arreio. Pinups, de tudo o que é possível virar uma, de rótulos a esculturas. Luzinhas e bobagens. Memórias e experiências. Queria demais colecionar leitores que a acompanhem por toda a vida. Quer entrar para o meu clube, ser colecionado?

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