quinta-feira, 16 de julho de 2009

Qual a sua dúvida existencial?

por Marli Gonçalves
Todo mundo tem pelo menos uma; às vezes, centenas, que apenas vão se acumulando ao longo da vida, e que aparecem cada vez que o pensamento consegue se distrair. Aliás, por que a gente só consegue pensar na existência numas horas meio ridículas?
Há dúvidas, dúvidas e outras dúvidas. Você pode perder um tempão segurando um rolo de papel higiênico, sem saber se o coloca no lugar com a ponta para cima, ou se para baixo. Pensando por que a caneta nunca está do lado do telefone quando você precisa.Ou por que quando tem caneta, não tem papel, e vice-versa. Por que o telefone só toca exatamente quando você acabou de entrar, digamos, no banho? Deve ter alguma câmera escondida, em algum canto, só pode ser. Há a clássica do pão com manteiga ou geléia ou pasta de amendoim caindo de barriguinha pra baixo, assim como aquele último pedacinho de bombom que você saboreava. Olho gordo do cachorro – acusamos – quando há algum por perto. E se você não foi e achou depois que deveria ter ido? E se foi e ficou lá pensando que poderia estar é em outro lugar, fazendo outra coisa? A vida nos impõe cada uma! Têm várias, dessas.Outras, as que chamo de mais sérias, porque não adianta mesmo, você não pode fazer mais nada, além delas te deixarem cismando, e que podem trazer até sérias complicações de saúde, físicas, como gastrite, ou psicológicas, na linha "ah, eu tô maluco”, "tô deprê”. Tipo, "Meu Deus, o que fiz de minha vida?”. Ou "por que não ouvi os meus pais?”. "Para que fui ter filhos?”. "Por que aguentei tanto tempo?”. Podem levar até ao suicídio, em casos extremos. Ou a uma tristeza crônica, falta de vontade de tudo. Achar que viveu sem viver, quando encontrou uma referência. Achar que viveu demais quando se sente cansado e que já viu de tudo.A vida passou. Já era. Tarde demais. Top, top. Irreversível. Mas, atenção, esse tipo de dúvida só avisa que não é para perder mais tempo, nem um minuto ou segundo. Imagine um sino tocando. Um alarme. Tomou consciência? Chuta! Corre para outra! Tudo é possível nesse mundo. Aprenda. Nada como um dia depois do outro. Assim é até que a gente se desloque daqui sei lá para onde. Descrença é doença que dá e você próprio cura, criando praticamente uma imunidade.É sempre positivo e bom pensar, rever, analisar, tentar fazer o jogo do certo, do errado, da coluna do meio. Mas há algumas dúvidas que considero encafifantes. (Encafifar = encabular, ok? O que significa que você fica com elas coçando sua cabeça, dia e noite, matutando). Esta categoria de dúvidas deve assolar todo mundo. Elas podem dizer respeito a você, ao seu íntimo, sua vida, ou ao seu redor, o que vê, a sociedade. O que elas têm em comum? Nunca serão respondidas. Nunca saberemos se sim ou não. Sou feliz? Por que para algumas pessoas a vida é tão fácil? Por que uns podem e outros não? Por que eu não nasci com meu traseirinho voltado para a Lua? Por que parece que só morre gente boa? Como ninguém percebe aquele safado ali enganando todo mundo, se fazendo de bonzinho, de inteligente? Por que todo mundo fica esperando que eu fale, que eu me exponha, ponha o meu lindo bumbum na janela? Porque sou corajoso ou será porque pareço otário? Por que me subestimam tanto? Mea culpa, mea maxima culpa.E nos relacionamentos, então, o negócio piora, quando damos trato e tempo a essa bolinha cerebral sem eira nem beira que carregamos no pescoço, com sérias ligações com o coração e com uma tal de alma, de espírito. Porque esse nível é o da total insanidade, parcialidade, subjetividade. Se houver ciúmes, e sempre o monstrinho ameaça, é capaz de uma dúvida descer ladeira abaixo igual avalanche, levando tudo o que encontra. Por que será que ela está comigo? Será que ele pensa que me engana? E dependendo do casal, ou do relacionamento, se alguma das partes quiser deixar de ter essas dúvidas, não vai dar certo. Ou porque, ao expor o que pensa, vai tomar um tabefe ou ouvir mentira maior. Ou porque pode requerer exatidão de informações. Deve ser por isso que a profissão de detetive particular está sempre em alta. Assim como a velha mania de bisbilhotar celulares, carteiras, cheirar e vistoriar roupas, ouvir atrás de portas, jogar verde para colher maduro.Acontece é que a gente tem dúvidas de tudo. A gente duvida inclusive da gente mesmo. E de nossa própria capacidade. Para piorar, o mundo mostra a cada dia que não há limites. Você esfrega os olhos e vê coisas que duvidaria se alguém um dia te contasse. Collor e Lula abraçados, só uma delas. Maluf governando com o PT, outra. Silvio Santos se desentendendo com Gugu. Michael Jackson morreu. Roberto Carlos cantando na chuva e em cruzeiros marítimos. Roberto Justus sem topete (não reparou como está rapado, sumindo?). Hebe Camargo ganhando menos do que a Eliana. Um papa sem empatia. Padre cantando e cantor rezando. O rosário é enorme. Olha aí você agora mesmo pensando em vários outros itens! Viu? Pensar é bom, distrai. Ter dúvidas existenciais é uma das coisas mais humanas. Os bichinhos, mais espertos, não sofrem com isso, são menos condicionais. Importante é saber mesclar as dúvidas reais com as engraçadas, as de sempre. A do papel higiênico, da caneta, com aquela de por que o leite derrama exatamente naquele segundo de distração, por que todas as mães são iguais...Por que as palavras somem quando delas precisamos? Por que esquecemos justamente o que precisamos lembrar, por que nada acontece quando você não tem nada a fazer e tudo parece surgir logo que acabou de marcar algo? Por que nem sempre quem a gente ama, ama a gente, e vice-versa? Nossa cabeça é feita para pensar. Acredito até que nossos sonhos e pesadelos são o retrato mais doido de nossos pensamentos, de nossas dúvidas, de nossos medos. Duvida? O que é mesmo a existência?
São Paulo, será? 2009 em diante. Marli Gonçalves é jornalista, a profissão dos porquês. Sempre pensa que, puxa, viveu para ver isto ou aquilo, embora tenha perdido boa parte da festa porque ainda não tinha nascido. Capaz de ficar horas imaginando como seria se tivesse sido diferente do que foi. Nunca vai saber. É o que temos no momento. Por que sempre chove quando a gente sai de roupa clara? Por que só se descobre que a água quente acabou depois de abrir o chuveiro?
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