segunda-feira, 11 de maio de 2009

Clovis Rossi e o complexo de vira-latas

Caro jornalista Clovis Rossi,

Sobre sua coluna de hoje (17/3), " O vira-lata cresceu e não sabe", gostaria de fazer algumas considerações, se me permitir.
Sabe quando o Brasil perderá seu complexo de vira-latas? Olhe acima de seu artigo hoje, no topo da página e veja a charge, que aí encontrará a síntese para uma resposta. O problema não é ser vira-latas, pois estes cães são os mais resistentes, os mais espertos e geralmente, os mais inteligentes. O que lhe confere esta pecha de raça inferior é quando ele perambula mal tratado e judiado e abandonado pelos donos.

Mas respeitando esta analogia, sabe quando nosso complexo de "vira-latas" abandonado vai acabar? Quando a impunidade, os desmandos e a corrupção forem exemplarmente punidos e quando a lei atingir a todos, sem exceção.

Deixaremos também de ter vergonha de nossa "vira-latice" quando nossos governantes se empenharem de corpo e alma em investir maciçamente em Educação e Saúde, muito mais do que em bolsas-família para famílias sempre tratadas, estas sim, como vira-latas abandonados e a quem lhes é atirado os ossos que restam de banquetes dos políticos e ricos que querem seu rabo sempre abanando a pedir mais; quando segundo seu próprio dizer em artigo anterior, a indecente diferença entre ricos e pobres chegar a um patamar aceitável de dignidade.

Penso que nossa sensação de inferioridade estaria melhor resolvida se um presidente não precisasse fazer tanta graça para fazer-se notar nem necessitar de tom coloquial em entrevistas com mandatários do primeiro mundo, pois o tom formal lhe traz desconforto, já que não consegue ter conversas de caráter técnico, uma vez que a leitura de lhe traz azia e é um improvisador, pouco metódico, mas tido como muito intuitivo e esperto e nada mais que isto lhe é cobrado, como se isto por si, bastasse.

Creio que chegará ao fim essa incômoda sensação de inferioridade quando deixarmos de superdimensionar a importância desses encontros e fantasiar "químicas" que não aconteceram, porque não carecia de haver.

Sabe quando mais? Quando forem oferecidas a todos os cidadãos deste país, sem exceção, as mesmas oportunidades ainda que estes cidadãos tenham nascido com diferenças entre si. O presidente Obama e a primeira dama Michelle são um exemplo clássico do que eu quero dizer: ambos nasceram de famílias mais simples quase pobres, mas foi-lhes dada a oportunidade, e graças aos seus próprios méritos, puderam estudar nas melhores universidades, sem que tenham para isto recorrido ao recurso de cotas ou alguma proteção especial que não fosse a grande luta por si mesmos que tiveram de travar, a despeito de todas as dificuldades referentes ao racismo que aqui também vive em estado latente.

Vamos nos sentir menos vira-latas enquanto mensalões deixarem de ser tratados como caixa-dois e colocados no lugar do delito "comum", banal, igual a qualquer outro e tendo como desculpa que a invenção os antecedeu; quando não houver mais cartões corporativos sigilosos, cujo uso tem de ser assim porque sua utilização tem caráter duvidoso; quando não houver essa insistência, essa mania, em querer tratar o público como se privado fosse, como nunca na história deste país.

Nos sentiremos menos "vira-latas" quando confiarmos que a mídia se portará completamente independente da influência do dinheiro público, e que tenha respeitada sua linha ideológica, mas nunca amansada pelas benesses vindas do poder e com o dinheiro público e que ela seja a aliada do cidadão e não do governante de plantão que dela precisa sempre vigilante e alerta para o bem da nação.

Bem, para não cansá-lo mais páro por aqui. E se o sr. nobre jornalista considera que o Brasil é cachorro grande, nisso estou de pleno acordo, mas bom será o dia em que, de tão bem tratado, este cachorro grande possa sentir-se como um belo, forte, nobre cão vira-latas, com muita honra. Alíás, cães vira-latas bem amados e nutridos deixam de ter aquele olhar carente e submisso tornando-se confiantes, felizes e encantadores.
Abraços,
Eliana França Leme
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