Lendo uma matéria no caderno "Cotidiano" (24/7) sobre creches municipais aqui em São Paulo, fiquei bastante preocupada com a visão do TCM (Tribunal de Contas do Município) e de educadores sobre o "ensino" nas creches para crianças até tres anos de idade. Alegam eles que é necessário formação universitária para "ensinar" esses pequenos e que, em escolar particulares, por exemplo, oferecem até aulas de inglês para alunos dessa tenra idade !
Gostaria de contar, à título de ilustrar e introduzir a minha crítica ao que li sobre o assunto, uma cena que presenciei em plena Av. Higienópolis e que me emocionou às lágrimas.
Uma criança visivelmente pobre, brincava com um velho teclado de computador, puxando-o pelo fio, como se fora um carro, fazendo aquele som típico de velocidade, assim: vumm...vummmm...Era um menininho e deveria ter uns tres anos de idade, não mais. A mãe, uma humilde vendedora ambulante que parara por ali, conversava com um homem sobre o filho olhando-o com ternura e vendo-o tão entretido neste "faz de conta", comenta: "ele precisa brincar bastante hoje para mais tarde, ter bastante vontade de aprender".....Imediatamente, ao escutar aquilo, voltei-me para ela espantada com tanta sabedoria contida naquela curta, porém densa frase. Ali estava uma educadora nata; ela simplesmente SABIA ! Não precisou de curso universitário para entender aquilo que costumamos compreender após muita leitura e estudo sobre teorias cognitivas: de que é preciso saborear o conhecimento para que surja uma aprendizagem significativa. Ela entendia espontaneamente que é preciso brincar na idade de brincar e que, naquele momento, o filho também estava aprendendo, pois se aprende ao brincar. Mas esta intrincada co-relação lhe era ditado pelo olhar amoroso, pela percepção de que é, pela brincadeira nesta fase da vida, que se abre espaço para a creatividade e posterior sabor e procura pelo conhecimento. A própria palavra SABOR, que pode ser associada a SABER, pela raíz latina da nossa língua, já diz tudo. Impressionou-me o fato dela acolher, permitir e sobretudo, valorizar esta situação lúdica do filho. Ela não precisou curso universitário para ter claro este conceito até complexo e que envolve um conhecimento que esses senhores do TCM e educadores, com seus cursos de graduação e pós graduação não conseguem ter, pois o único critério que eles usam para saber se uma creche é boa ou não , vejam só, é a quantidade de informação que é passada a uma criancinha de tres anos!!! Pois que bom que as professoras não têm grau universitário. Assim, sem o filtro de teorias mal compreendidas, elas poderão dar carinho e acolhimento verdadeiro para esses pequenos, já tão privados da presença das mães que não podem ficar com eles por terem de trabalhar fora o dia todo.
A única coisa realmente imprescindível que uma criança neste idade necessita é: ser amada, ser acolhida, ser compreendida, poder brincar, sentir-se feliz e menos ansiosa pela ausência da mãe, aprender alguns limites necessários de acordo com a idade, sentir-se amorosamente organizada, poder expressar seus sentimentos, sejam eles quais forem, ter alguém que as entenda e saiba decodificar seus anseios e muitas outras coisas que não são de ordem intelectual-cognitiva. E isto por sí já é muito! Além de essencial, é o que de mais precioso um pequeno de até tres anos precisa. Só assim, estas crianças estarão preparadas para o conhecimento, porque integradas, mais felizes e confiantes... pois que o conhecimento tem uma vida inteira para ser adquirido, enquanto a confiança na vida e nas pessoas é só nesta fase precoce ser possível de ser introjetado efetivamente e é só isto que interessa neste momento. E para oferecer isso aos pequenos não é necessário ter curso superior e até melhor até que nem o tenha.
O critério para escolha do educador destas crianças deveria ser baseado em perguntas simples tais como: "Você gosta dos pequenos de verdade?" "Como é para você amar e cuidar bem de uma criança pequenina?" ou ainda "Você sabe e gosta bastante de brincar como se fosse um deles"? "Sabe dizer-lhe sim ou não quando necessário?" "Tem paciência com eles?" " Que brincadeiras vc mais gosta de brincar ?" "Quais as que você conhece"? "Quando eles choram de saudades da mãe, você consegue dar-lhes colo e consolá-los?" "Quando eles estão tristes e sentindo-se desamparados, você consegue abraçá-los e fazê-los sentirem-se protegidos?"
Coisas assim é que importam de verdade....
Pelas respostas e olhando bem nos olhos do(a) candidata(o) poderíamos dizer quem é ou não um bom educador, quem é ou não uma pessoa inteira. E se você, leitor, olhar para trás, para sua infância, verá que só se recordará apenas dos professores que souberam olhá-lo com ternura e lhe permitiram SER.
ELIANA FRANÇA LEME
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